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Frases da História...

Publicado a 30/06/2011, 06:11 por Paulo Soledade   [ atualizado a 30/06/2011, 07:27 por Nuno Sentieiro ]

Fizeram história algumas frases usadas no decorrer dos jogos. Ainda hoje elas, sempre que surgem à baila, são encaradas com um sorrizinho manhoso e cúmplice. Como que a relembrar um episódio que se repete inúmeras vezes. As frases de algibeira, também popularizadas pela expressão "envenenamento verbal" já foram enunciadas aqui no passado. Exemplos como o de autor "eu já só estou a jogar para me divertir" ou o transversal "isto está é para o..." são episódios que fazem os jogos. Mas há expressões que são os jogos que fazem. Como se ganhassem vida própria e dissessem coisas sozinhos. Nós só estamos ali para as verbalizar. Este texto serve para relembrar algumas dessas expressões. E quem sabe não serão só os grandes jogos a ter direito a falar por conta própria?!

1. "Meter para dentro" - esta expressão aparece em todos os jogos de 18xx e tem um significado mais ou menos básico: ao invés de distribuir dividendos, a companhia vai reter o dinheiro para se financiar. No fundo, todos concordarão, a companhia está a meter para dentro. E não pode haver outra forma de dizer isto! É uma expressão macha para jogo macho e peludo mas é, ao mesmo tempo, uma expressão suficiente para arrancar uma boa piada! E nas conversas pós jogo (as melhores) origina conversas densas e também elas pensadas, produzindo coisas como: "tu não devias ter metido para dentro naquela altura" ou ainda, "devias ter metido para dentro com a vermelha".

2. "Não podes" - se há jogo brilhante é o Brass. Ele é tão brilhante quanto interventivo. Está sempre a dizer, "não podes". Podemos pensar nisso como fase de afirmação do jogo, ou até como uma espécie de autoritarismo. O Brass é um jogo cujas coisas que nos dá para fazer são sempre boas. Essa é, dizem, a maior dificuldade que o jogo oferece e também o que ele tem de melhor. Queremos fazer uma fábrica, um link, um porto, vender ou pedir um empréstimo porque é tudo bom. Mas tinha de haver uma auto-regulação. Algo que nos impedisse de querer tudo. A expressão "não podes" vem ao encontro dessa necessidade. É como beber leite e comer ameixas. Dá caganeira! Tem tudo a ver com regulação.  Fábrica de ferro aí? "Não podes"! Vender para o mercado externo? "Não podes"! Ameixas com leite? "Não podes!"

3. "Estás sem supply" - há jogos bons, jogos maus e jogos assim-assim. Depois há os que escrevem as linhas dos jogos todos do mundo. Como um abcedário de tabuleiro. Paths of Glory é um desses jogos. É o verbo inicial. É o A de Abcedário. É o til da palavra mãe! Faz a diferença em todos os sentidos, é brilhante pela simplicidade é majestosamente bem desenhado. As cartas desmancham-se em eventos e numerologia. Elas criam o guião que os jogadores vão ensaiando. O gato e o rato da 1ª grande guerra vão-se interpelando e mudando de papéis, desenhando uma nova (ou repetida) história. Queremos chegar a um número de pontos vitória que as cidades europeias determinam mas, no fundo no fundo, o que queremos é que o jogo nos largue aquela deixa maravilhosa para que possamos depois dizer, com voz grave , confiante e general: "Estás sem supply"! Podemos cirandar pelo mapa, criar oportunidades, lançar dados de mil e uma formas mas, aquele momento, aquele momento arrepiante em que o jogo respira fundo e nos deixa dizer "Estás sem supply", é o coroar de uma vitória. Pode haver um contra-ataque, pode haver um desfecho infeliz pode haver um volte-face nos destinos mas, como sempre se ouve dizer por aí, esta já cá canta. "Estás sem supply"!

4. "Quantas Cê erres há?" - Liberté tem razões que a própria razão desconhece. Liberté é um jogo, avaliando de forma sóbria e dura, menos bom que o que faço parecer na maioria das vezes. Tem muitas falhas relacionadas com sorte, sobretudo. Mas conta uma história. É dos poucos jogos que fogem da normalidade, é um jogo excepcionalmente excepcional. A tarefa de o jogar não é fácil, ainda por cima quando macacos velhos como eu o dominam (ou pensamos que sim) de fio a pavio. E ele pergunta-nos sempre, sempre, invariavelmente, "quantas Cê erres há?" A expressão deriva de CR, que quer dizer, contra-revolução. Várias regiões marcadas no mapa estão marcadas com CR e, quando 7 delas estão ocupadas pelos monárquicos, não há revolução em França. A pergunta de "Quantas Cê erres há?" surge sempre da mente mais preocupada, dos revolucionários aflitos. Jacobinos aos saltos. Um jogo de Liberté só começa a acontecer quando alguém pergunta "Quantas Cê erres há?"

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