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Spiel'11 - Uma espécie de rescaldo sem jogos

Publicado a 25/04/2012, 10:58 por Spiel Portugal   [ atualizado a 25/04/2012, 11:05 ]

147 000 Visitantes, 750 novos jogos, 810 expositores, 34 nacionalidades diferentes, 48% de expositores estrangeiros (não alemães), 4 dias na maior feira mundial de jogos de tabuleiro - Essen Spiel 2011.

I - Primeiro Impacto

Essen é uma cidade típicamente alemã, cinzenta com calções verdes, de edifícios espessos e avenidas largas. O metro é funcional desde 1930 e os taxis exibem taxímetros futuristas nos retrovisores - mas "enough about that".
O complexo da Messe Essen é imponente - descontextualizadamente moderno - exibe-se altivo, orgulhosamente só, no início da cidade como quem vem... à chegada a habitual fila para entrar - sem pressas - organizada, mas impaciente.

II - Essen pelo avesso

Assim que entramos na feira, somos recebidos por portas de fato alcatifado e gravatas vermelhas que nos dizem coisas em alemão. Sorrimos e damos de cara com os seres amarelos Spielbox que nos esticam a mão e oferecem uma revista que, assim que a perdemos, se torna extremamente útil.
Se for o teu primeiro ano na feira - não te esqueças de usar o bengaleiro para guardar as tuas tralhas - terás uma engraçada lição de vida de escola económica vigente.
O Pavilhão de entrada o enorme 12 - nota que qualquer correspondência com a verdade é mero acaso, uma vez que nunca soube a planta da feira e perco-me constantemente no seu interior, fingindo sempre um deambular seguro e objectivo ao passar pelo mesmo sítio uma segunda vez - fica repleto, com uma barreira cerrada de mochilas e sacos do Ikea (mais sobre estes sacos dentro de 27 linhas). Para o visitante experimentado e demasiado geek, este é o dia. Recolher pre-orders, correr para a "booth" da editora que esgota, fazer o check in com os amigos, trocar aquele jogo que trouxeste na bagagem de mão com  o tipo do BGG que tem como avatar uma criatura monstruosa de machado na mão e que na verdade pesa 34 quilos e usa os óculos do Pessoa, ser o primeiro a ver a TUA "aposta pessoal"...

III - Depois de almoço

Na Alemanha come-se muito bem. Infelizmente, no self-service da feira não. Pelo menos existe sempre uma escolha difícil entre a bolonhesa com sabor nórdico e os panados com porriolas amarelas (vide imagem à esquerda - a outra esquerda). Depois de almoço e de uma dose de água com preço de gasolina com bolhinhas, o quebranto ! Pela primeira vez vais sentir uma moleza de siesta e uma sensação de "por que raio é que eu tou tão cansado se não fiz nenhum?" - mas fizeste, e esta sensação vai-te acompanhar nos próximos 3 dias. "Onde é a editora X ? - Deixa-me ver na revista que me deram à entrada... "#$% !"

IV - Listas horizontais

O visitante preparado traz sempre uma lista, ou várias listas, com prioridades, hierarquias, preços referência, coordenadas... grande parte da feira é passada a jogar às escondidas com a(s) tua(s) lista(s). Encontrar pechinchas na feira é fácil, dá trabalho, existe sempre um preço melhor do que o último, mas na primeira visita a Essen perderás certamente horas a encontrar "aquele jogo" a preço de saldos de fim de estação. Mais tarde perceberás que, no que diz respeito a board games, se um jogo está muito barato a probabilidade de servir de acendalha num Inverno rigoroso é muito grande. Mas o que é que isso interessa quando "por 5 euros isto nem paga o cartão!". Sacos do Ikea cheios, novidades, pechinchas, freebies, casacos ("- eu é que não sou parvo.") é altura de pousar a trouxa e deixar sair o animal social (salvo seja).

V - O animal social

Os primeiros cafés (depois dos últimos 3), conversas, rever amigos, apertar mãos, ajudar no stand.pt, trabalhar (sim em Essen também se trabalha - e é bem giro quando te apercebes disso), esbanjar humilde conhecimento, humilhar pessoal que trabalham nos stands (experimentem perguntar, por exemplo, a um tipo que trabalhe na Hans im Gluck se te pode explicar o que raio é aquele jogo de título esquisito "caprisone?"), assinar jogos, ver o knizia ao longe (diz que se pega...), jogar uns joguinhos...(NOT ! ehehehhe... por incrível que pareça, em Essen, quem gosta apaixonadamente de jogos não tem tempo, nem vontade de jogar.). E quando nos altifalantes a senhora gorda cantar mas em alemão vais perceber que entraste no último turno sem que a tua estratégia tivesse tempo de brilhar.

VI - After Hours (ours)

Chegar ao hotel depois do primeiro dia na feira é mágico ! Tirar os jogos do saco, olhar para as caixas, com tempo e olhos de criança pelo Natal, resistir durante 30 segundos, abrir as caixas,  retirar das molduras as telas de cartão, o cheiro a jogo novo contagia e a pandemia instala-se por momentos. Mas é hora de jantar e um novo ritual começa. As nacionalidades congregam-se à mesa. As típicas cervejarias alemãs servem de palco aos melhores momentos da feira. Uma espécie de after hours, onde se fala de tudo, se brinda à amizade com cerveja estupidamente à temperatura certa, pratos cheios de uma impronunciável especialidade da cozinha alemã, e ,finalmente, se percebe, se constata, que tudo faz sentido, que o espírito de grupo, de pertença, de comunidade, de interesses comum, se torna óbvio - ou talvez seja a cerveja a falar...
De regresso ao Hotel, um jogo, curto, para marcar posição, num sala repleta de jogadores com sotaque franciú. Já no  quarto, um olhar de relance e um sorriso orgulhoso para a pilha de jogos: "-Acho que ainda vou abrir "aquele" jogo..."

VII - Mais do Mesmo (mas no bom sentido)

Os dias seguintes correm como cotidiano, já sem surpresas de maior, chega a enchente de fim de semana, decoras onde é o pavilhão 5, descobres a melhor barraca de cachorros, repetes a "private joke" que resultou do último jantar até não ter piada, lembras-te de mais 10 jogos que querias mesmo, ajudas alguém a encontrar a "booth"  da editora mais independente do mundo, os jogos maus ficam ainda mais baratos, aparecem os primeiros sinais "sold out", coleccionas porcarias, perdes-te, encontras tipos "-tu por aqui!" , achas perfeitamente normal o Friese estar, verde, à tua frente, na fila para o café...

VIII - Regressos

No final, umas dezenas largas de jogos, um sentimento de dever comprido, um sorriso, cansado, nos lábios. Essen é assim, uma rotina de rituais. Sem maior novidade do que ser sempre diferente, no mesmo sítio, da mesma maneira, com protagonistas modulares, em guiões habituais mas que evoluem de forma imprevisivelmente mágica na mesma medida em que se nos revelam - em regressos.

Essen Spiel'12 - 18 a 21 de Outubro - no sítio do costume.


#nbs#  - Nuno Sentieiro

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