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Tabula Post



Por: José Carlos Rôla

Existe uma mesinha em casa do meu pai que, muitos riscos depois, tem uma imagem muito parecida com esta. Ainda hoje me fascina olhar os nomes das terras, os recortes dos continentes, as figuras míticas a adornar os cantos.

Aquela mesa funcionou para mim durante anos como hoje os tabuleiros dos jogos: deu asas à minha imaginação!

A arte na caixa de jogo, o nome do mesmo, despertam-me para as histórias que devorava nos livros do Falcão que ainda colecciono. Mas é sobretudo após a jogatana, quando com a barriga aconchegada com o queijinho e a cerveja da praxe deito a cabeça no travesseiro, que o meu pensamento voa por breves minutos até outros tempos, até outros lugares, cenários e enredos.

Momentos deliciosos, como a sobremesa duma lauta refeição. Isso e as reflexões sobre o que fiz ou não fiz com os cubinhos e as cartas...

Talvez dê para escrever algumas. Sobre a mesa. Após o tabuleiro. Tabula post.

Quase nada

Publicado a 06/09/2016, 08:41 por José Rôla   [ atualizado a 06/09/2016, 08:58 ]

Tenho meia hora e vou escrever coisas. Sobre jogos, pois.
Há muito que não escrevo coisas sobre jogos. Aliás, há muito que não escrevo coisas.
Porquê? Pergunto-me eu, já que mais ninguém estará verdadeiramente interessado na resposta, quanto mais em colocar a perg
unta… A verdade é que já não me puxa. Parece que quando era mais puto no hobby havia sempre aquela vontade de falar de tudo. Porque tudo era novidade, tudo era passível de análise, de dissertação. Passaram os anos, quase dez, faço agora as contas, e não é que tenha deixado de me sentir surpreendido, bafejado pelo ambiente de cada novo jogo ou seguro na visita a títulos mais antigos. Dá-se até o caso de não poucas vezes dar conta de novas sensações nessas visitas.
O tempo é matreiro, foge-nos em cada seroada de jogatana e acumula-se depois nas prateleiras cheias de caixas! E é esse tempo ajuntado que testemunha as mudanças na minha vida, sobretudo aquelas que me fazem ter hoje menos vontade para escrever coisas.
É tão assim que, tendo hoje meia hora para escrever sobre jogos de tabuleiro acabo de perceber que não o farei. Fica para outro dia, com mais tempo. Ou com mais vontade. Ou, decididamente, para uma ocasião em que tempo e vontade se juntem!

Paella ou paelha?

Publicado a 21/05/2015, 06:22 por José Rôla   [ atualizado a 21/05/2015, 06:25 ]

O Spiel Portugal inicia hoje uma série de consultas públicas sobre alguns dos temas mais candentes do mundo dos jogos de tabuleiro.  Queremos saber a tua opinião, sincera e fundamentada.

 No próximo sábado irá acontecer o tradicional almoço de paelha da família Spiel Portugal, já na sua primeira edição. A questão é:

não se joga na sexta porque “bem basta ter de aturar esses teus amigos dos jogos no sábado”

não se joga na sexta porque o Paulo tem de arrumar a casa para sábado

não se joga na sexta porque  joga-se no sábado assim que as crianças tiverem de ir para a catequese e as mães as tiverem de levar

joga-se na sexta porque no sábado vai ser só conversa

joga-se na sexta porque o Paulo tem de arrumar a casa para sábado

joga-se na sexta e, se tiver de ser, joga-se no sábado

bonito era irem apanhar cereja com o Dominguez ou ajudarem a espalhar a varicela do Ferreirita


Veja aqui os resultados:  

Paella ou Paelha?

https://www.youtube.com/watch?v=07-UhI81jH8


Agora eu, agora tu!

Publicado a 05/05/2015, 07:38 por José Rôla   [ atualizado a 05/05/2015, 16:16 ]

Puxo a mão atrás, o disco seguro na dobra dos dedos. O braço desloca-se agora para a frente e naquele momento preciso a pesada peça de ferro solta-se e voa até um pino que a espera apoiado sobre uma grossa e larga travessa de madeira semienterrada no solo.


Concórdia, mapa Britânia – Concórdia é um daqueles jogos médios bem feitos e interessantes. Há jogos médios bem feitos mas que não puxam carroça, como diziam os meus avós. Não é o caso deste. Por isso gosto tanto de o jogar e por isso gostei de experimentar o mapa da Britânia. Uma espécie de aperitivo fresco, tipo melão com presunto ou sobremesa colorida, a lembrar uma salada de frutas.


Fields of Arle – Duas jogas depois, esta proposta de Uwe Rosenberg para dois jogadores não desilude. Bem balançado, oleado e desafiante quanto baste, é um bom jogo para levar à mesa quando não há mais jogadores ou estes são tantos que têm de se montar duas mesas. Falta-lhe um pouco mais de interação, por vezes parece que estamos a jogar a solo (que também é uma possibilidade que o jogo oferece) e não traz nada de novo em geral e muito menos em relação ao universo Uwe, mas enche as medidas no campo não "wargamer".

Dois grandes jogos? Dois jogos fantásticos? 

Não. Mas duas boas malhas, seguramente!

Protótipo dum crime

Publicado a 20/04/2015, 08:30 por José Rôla

Parece impossível! Depois daquela cena no domingo de Páscoa era bem tempo de eu ganhar juízo, arrepiar caminho e não arriscar ver as malas à porta de casa. Mas um deles disse que trazia foie gras e Sauternes…

Lá convenci a minha rainha que jogar um protótipo não é prazer, é trabalho, que é mais ou menos como a camisola que ela anda a tricotar.

E foi assim que abri a porta da minha humilde casa a três marmanjos de barba mal semeada e ainda pior colhida.

Desengane-se quem estiver a pensar que vou levantar o véu sobre o tal proto. Não me pagam para isso. O meu post é apenas para testemunhar o quão perto fiquei de ter de vir a discutir a custódia dos meus filhos em tribunal depois do que aqueles mafarricos fizeram.

“Os teus pais não te ensinaram que é preciso muito cuidado com as companhias?” - atirou ela no pico da zanga. “Mas ó rainha, um deles é teu irmão!” – tentei chamá-la à razão. “Por isso mesmo sei o que estou a dizer” – rematou ela com total fundamento, claro.

Que tenho de escolher melhor quem vem cá a casa. Gente com maneiras, pessoas que não necessitemos de amordaçar para evitar que toda a casa acorde, rapazolas que não passem a vida a mencionar nipples, em inglês, para disfarçar, que não se arrastem para casa às quatro da matina, depois de esgotarem da despensa tudo que é aperitivos fora do prazo de validade.

“Não foi com intenção” – tento eu justificar o indesculpável. “Ah pois, mas quem tem de limpar esta porcaria agora, sou eu.”

Ainda tentei amenizar a coisa oferecendo a sobra do fígado do bicho mas ela não é apreciadora e abri a porta para ouvir o que não queria: - “Olha, a ver se do tal vinho doce ficou alguma gotinha para amostra!”

Tentei safar-me de fininho: - “Aquilo é feito com uvas podres, querida”. “Bem, isso explica muita coisa, porque podre pareces estar tu desde que te deitaste!”

A coisa não apresenta meio de melhorar. O que quer que diga só me prejudica. Ainda tentei explicar que o culpado era inocente porque a mordaça lhe caiu para os olhos e ele não topou o que estava a fazer, mas não resultou: - “E os outros, lá por estarem amordaçados não foram capazes de dizer nada?!”

“Juras que não volta a acontecer?” - consegui finalmente sacar-lhe a declaração de vitória mais honrosa para mim.

Estou safo. Nunca mais vai acontecer porque nunca mais lhes ofereço café. Dificilmente algum deles alguma vez deixará um restinho de bagaço ou mesmo de vinho num copo. Não corro pois o risco de voltar a salpicar, bancada, armários de cozinha e mosaico junto à máquina de lavar loiça!

Ufa, foi por pouco.

Crime em família

Publicado a 13/04/2015, 10:08 por José Rôla

O Domingo de Páscoa é sempre um dia muito feliz. O deste ano não foi excepção. A família reunida à volta da mesa, o bom tempo a convidar a uns pontapés na bola com os miúdos, a luta inglória contra as amêndoas de chocolate e o folar…

Mas eis que eu, o Andrade e o Dominguez somos apanhados em flagrante! A jogar numa tarde que deveria ser passada em família! “Deviam ter vergonha”. Sobretudo eu, que procuro viver estas quadras com a devida profundidade.

Nós bem tentámos disfarçar: ah e tal, isto não é jogar, é trabalho. Ah e tal, o espanhol comprou o jogo e ainda não lhe pôs os coutos em cima. Ah e tal, o autor corta os pulsos se ninguém de Leiria jogar isto…

Mas nada resultou. Passamos rapidamente a proscritos. As nossas mulheres deitaram-nos aquele olhar gélido, os filhos pararam de nos pedir para empurrar as bicicletas e os nossos pais e sogros deixaram bem claro que para a próxima não trazem camarão.
Faz já 45minutos que ninguém mais na casa fala connosco e ainda não acabou a explicação do jogo, feito e refeito o primeiro “set up”! Entretanto chega o meu melhor amigo e padrinho do meu filho, que é médico: “eh pá isso parece complexo, a ver pelo tabuleiro eu diria que já vi cirurgias menos delicadas”.

Eu e o Andrade queremos meter tudo na caixa, mas o Dominguez impede-nos com dois argumentos decisivos: “o jogo é meu” e “já vou apanhar e vou…”

Eu arranco com a primeira ação, meto dois carros amarelos em testes fazendo-os sair pelo centro da linha de montagem e pimba, 4 pontos. Primeira asneira: abri já duas abébias para o Andrade que tinha um tile de projeto de carro amarelo e mete o seu “meeple” no primeiro espaço da track de ações, não vá o diabo tecê-las.

O diabo, para além de espanhol, nunca jogou isto. Escolhe ir às peças porque achou engraçada a cena da carta que roda e indica as peças disponíveis.
A Sandra, que não estava a jogar e é esposa do autor, não tarda começa a fazer das suas e ocupa a casa de ação que dava mesmo jeito usar agora.

Para nossa salvação há um cunhado que entre apanhar lá em casa ou jogar à bola com os pequenos, prefere a segunda. E foi assim que o esférico deixou de rolar sobre a relva e aterrou em cima da mesa, colocada estrategicamente ao ar livre, para evitar estorvos na circulação de pessoas e bens degustáveis dentro de casa. Voam automóveis acabados de testar, chassis e sistemas de travões, cadeiras da sala da administração, ideias luminosas e a Sandra e o pessoal de fato de macaco!
O autor da façanha nem desculpa pede, tem as costas quentes o sacana: uma mãe e três tias prontinhas a trocar o tal olhar por uma faca igualmente cortante.
Desta vez é o Andrade que segura as pontas e arranca decidido para o terceiro “set up” da tarde: “não é uma bolada dum sportinguista que me vai derrotar”.

Depois de se perceber o que cada ação faz, o jogo até é simples. A track de ações está bem esgalhada e as coisas fazem sentido. O tema encaixa. Mas cansa, o danado. 
As nossas bocas já estão secas e não há ninguém para ir ao frigorífico buscar umas lourinhas. A minha rainha fez chá, já vai a tarde perto das 18, mas fechou a porta da rua não fossemos nós sequer cheirá-lo!
Sinto-me miserável. O Andrade vai ganhar com dois palmos, é certo e a irmã só volta a falar para mim lá pró natal, com sorte. Até consegui fabricar e meter cá fora uns carritos, até consegui evoluir em 4 das 5 colunas do saber, mas não vai chegar. Estou a pagar a minha falha de dia de Páscoa.

O Dominguez acabou de rebentar o banco com um joelho, pesa pouco o rapaz! Esqueço o
 Natal.

É hora de jantar, acho que nos deixaram umas sobras. Ninguém fala connosco, todos nos viram a cara. 
Vemo-nos obrigados a ligar os “Ipads”, logamo-nos no Yucata, terminamos um RRR em curso e arrancamos com um Náuticos! As nossas mulheres parecem finalmente apreciar o nosso esforço para estar com o resto da família e os nossos filhos até ficam orgulhosos dos pais a mexer nas novas tecnologias. 

Talvez sejamos perdoados, afinal. “Mas que isto não se volte a repetir. Kanbanado?”

Não sei, não sei. Por mim vale a pena repetir!

Perfume em frasco de alabastro

Publicado a 05/04/2015, 05:06 por José Rôla   [ atualizado a 06/04/2015, 14:48 por Nuno Bizarro Sentieiro ]




“Quando estava à mesa aproximou-se dele uma mulher que levava num frasco de alabastro um perfume puro, muito caro, feito de uma planta chamada nardo. Ela partiu o frasco e deitou o perfume sobre a cabeça de Jesus. Algumas pessoas que lá estavam mostraram-se indignadas com aquilo e começaram a dizer umas às outras: “Para quê desperdiçar todo este perfume? Pois poderia vender-se por mais de trezentas moedas, que se dariam depois aos pobres.” Mc 14, 3-5 

1764, um inventor britânico trabalha numa máquina de tecer que aplicada em contexto fabril será uma das precursoras da Revolução Industrial na Grã-Bretanha.

Março de 2015, a mesa alberga uma panóplia de tabuleiros, tiles, cubos e uma multidão de “meaples” cinzentos. O jogo chama-se Arkwright e exala perfume por todo o lado. Cheira a revolução industrial, a económico, até um pouco de “Brass” se adivinha.

Mas depois de 3 ou 4 horas de esforço e até alguma dedicação, há perfume a mais. Dá ideia que o autor derramou um frasco inteiro sobre o jogo, vários frascos na verdade! E sem necessidade. Ou melhor, sem remição.

Há jogos que parecem ter sido desenhados sem o cuidado de encontrar boas soluções em termos de mecânicas e da maneira como estas operam. Boas ideias, sim, que até funcionam, mas a que faltou uma boa grosa, algo a que se poderá chamar trabalho de editor.

Com Arkwright parece que o autor quis mesmo deixar assim, sem desbastar. Ou então não terá dado para o fazer sem que o jogo deixasse de ser aquilo que o autor pensou para o mesmo desde o início. Como o tal perfume derramado, o frasco quebrado, que não é possível recuperar. A pergunta é: porquê acrescentar assim tanta coisa?

Eu sou dos que gostava de ver a proposta mais polida. Acho que o jogo tinha a ganhar com a extinção dos tiles extra ou o seu uso de forma mais parcimoniosa. Desejava não ter que gastar tanta hora num jogo que gostaria de jogar de novo. Mas entendo que por vezes há que olhar o lado menos pragmático da vida, há que gastar o dinheiro em perfume caro. Não serei pessoa para o fazer, mas percebo que joguinhos há muitos e jogões nem por isso!

Se isso basta para eleger este Arkwirght como um dos meus, não sei. Ainda não sei.

Páscoa santa e perfumada. Aleluia!


Mais, mais!

Publicado a 01/01/2014, 12:26 por José Rôla   [ atualizado a 01/01/2014, 13:31 por Nuno Bizarro Sentieiro ]

Mais umas festas felizes, no final dum ano muito feliz! E entremeadas com belos jogos!



Brugge é um Feld simples, parco em pontos e fora do habitual nos grandes títulos do homem. Depende muito da sorte das cartas, é certo, mas não incomoda demais porque o resto é prazeroso. Aprende-se rápido e joga-se em tempo aceitável. Um bom título para aquelas ocasiões em que a mesa pede algo menos elaborado.










Craftsmen foi uma agradável surpresa! O tamanho da caixa dá a entender um joguito para entreter intervalos, mas na verdade trata-se dum sólido “worker placement”, demorado e trabalhoso.
As regras podiam estar bem melhor escritas e tal facto quase arruinava a coisa, não fora termos  4 horas para desbravar aquilo! O jogo tem aspetos que atrapalham e adivinham-se mais algumas coisas menos boas (a confirmar ou desmentir numa próxima oportunidade) mas a verdade é que o jogava de novo sem pestanejar…





Concordia é um Gerdts de boa colheita. Elegante, fluido, intuitivo e desafiante. Um daqueles raros jogos cujas regras se podem reduzir a um post-it e, também por isso, o interesse em trazê-lo à mesa de quando em quando não deverá esmorecer ao longo dos anos.



Russian Railroads é estranho. Depois de uma experiência a dois que me deixou algo desapontado, dei-lhe uma oportunidade a três. O jogo é mau? Não. O jogo é difícil? Não. Demora de mais? Nada disso. Tem coisas menos boas? Sim, mas até posso relevar isso. Então? O que me incomoda? Jogá-lo! É um tédio. Devo estar a ver mal qualquer coisa, mas a verdade é que não sinto prazer a jogar aquilo, morro de aborrecimento!






Pelo meio ainda houve tempo para o Crokinole da ordem, um 7 Wonders, um Metropolys e um Coal Baron. Belo foguetório de final de ano!
Bom 2014 para todos!



Nem mais!

Publicado a 04/11/2013, 14:02 por José Rôla   [ atualizado a 06/11/2013, 05:39 por Nuno Bizarro Sentieiro ]

Há fins-de-semana assim: jogos com os amigos e jogos em família. Maravilhoso!


Trains and Stations abriu a série e encetou o quinhão de jogos vindos de Essen. Rápido, muitos dados, tabuleiro pequenino, regras simples. O meu filho gostou e isso é que importa.

Canterbury. Não sou grande fã de jogos “área control”, fazem-me lembrar quando aspiro a casa. Mas não desdenho a oportunidade de um deles me surpreender. E foi o caso deste “very british” (ler o nome do autor com pronuncia é metade do glamour deste jogo) C
anterbury!
A excelente explicação do amigo Costa também ajudou, claro. A repetir.

S-evolution é o perdedor do grupo. Básico de mais, pouco claro nas "tricks", assim para o murcho em tudo.

Palmyra é a pequena surpresa deste atado. Regras bem simples: tile atrás de tile e toma lá moeda… Para aquecer uma ou outra noite de jogo ou até, trazer à mesa com a família, assim o Dominguez venha mais vezes…

E a fechar o domingo, depois duma sessão de cinema caseira com o Super-Homem, um precioso Metropolys! Faz talvez 5 anos que o havia jogado, e por o ter achado bem interessante atirei-me a ele na recente “math trade” de Essen. Em boa hora! O jogo é simples, elegante, tem volume. Tanto que até a filhota jogou; porque mesmo não alcançando a lógica da coisa, deu para se divertir a colocar prédio atrás de prédio, funcionando um pouco como um fator de adorável perturbação!

E foi assim. Bem bom!
 

Mesa pequena

Publicado a 09/06/2013, 07:48 por José Rola   [ atualizado a 10/06/2013, 07:57 por Nuno Bizarro Sentieiro ]


Há razões diferentes para pessoas diferentes adquirirem um determinado jogo. Para além dos fundamentos de gosto pessoal, que não discuto, há motivos que se apoiam num quadro de vivência do jogo de tabuleiro bem para além do mundo “gamer”. 

Confesso que me faz alguma espécie a forma algo displicente como avaliamos alguns jogos. Se o dito não é suficientemente pesado, ou não traz as nossas mecânicas preferidas, ou tem demasiado fator sorte, ou pouco… 

Contextualizar parece-me obrigatório. E sopesar os vários aspetos envolvidos, também. À partida, como em praticamente todo o produto comercial, há que atentar no aspeto da relação preço versus qualidade. Podemos ter um belo joguinho que custou 8 euros. E sim, é verdade, é um belo joguinho porque custou só 8 euros. 

O custo de um jogo não o torna melhor ou pior, mas é indiscutível que tolda o nosso juízo sobre o seu valor, enquanto oferta lúdica. É natural pois, que alguém se refira a um jogo como interessante porque, para o custo que tem, o tempo que demora e a facilidade com que se aprende, a proposta é bem interessante. E é ainda natural que esse título nem entre nas 50 escolhas preferenciais dessa pessoa.
Mais difícil de perceber é que outro alguém diga logo que o jogo é fraco, sem ter em conta todos esses aspetos que emparceiram um determinado jogo. 

Parece-me mais justo para o jogo dizer-se simplesmente se apreciamos ou não o que é proposto. Um pouco como a certificação de qualidade: um determinado produto pode ser certificado e durar pouco mais do que três ou quatro utilizações, se for precisamente essa a durabilidade que “promete”.
Esta questão entronca um pouco naquela dificuldade em classificar jogos de campeonatos diferentes. Como um Coloretto perante um Troyes, por exemplo. 

Uma vez mais, é possível estabelecer um, sempre do nosso agrado, paralelismo com os livros. Quem lê “A neta do senhor Linh” não pode equipará-lo a “Cem anos de solidão”, mas não deixa de perceber que tem ali uma pequena pérola! 

Talvez este exercício seja menos líquido no que toca a jogos, mas eu faço-o. E por isso não tenho pejo em colocar um “Hansa” nos meus favoritos. 

A vida, pelo menos a minha, não é compartimentada. Os jogos, mais até do que os livros, não existem em separado de tudo o resto. Porque é preciso tempo e são preciosas as pessoas que connosco jogam.
Quando vamos de férias em família, quando me reúno com os meus cunhados em casa dos sogros ao domingo à tarde, quando é 15 de agosto e há pic-nic na mata ou quando recebo amigos, os melhores títulos são um “Mamma Mia”, um “Patricier”, um “Thurn and Taxis” ou um “Cartagena”, já para não falar no “Ticket to Ride” ou no “Dixit”! 

Por isso fico sempre muito contente quando junto à minha coleção um joguinho que consegue ter algo de diferente e cativante, ser fácil de explicar e de entender e não demorar uma eternidade… Se esse joguinho, além disso, der para colocar numa pequena mesa à sombra da parreira, num dia temperado com cervejinhas fresquinhas e amendoins, então, temos uma pequena preciosidade.
Que se pode chamar “OddVille” e ter custado 15 aéreos na loja da LeiriaCon!
 

Bem vindos a 2012

Publicado a 02/01/2012, 12:55 por Nuno Bizarro Sentieiro


Porque é que um certo jogo nos fica na retina e outro não? Porque será que em determinadas ocasiões nos lembramos de um jogo como se fosse a banda sonora do momento ou a nota de rodapé do acontecimento? 

Ou será que tal só ocorre comigo?

Neste fim de ano lembrei-me varias vezes de… Welcome to Walnut Grove! Jogo mais insuspeito era difícil.

Fosse eu instruído nas ciências do foro psíquico e poderia aqui tecer um conjunto de considerações a propósito. Poderia até dedicar-me à coisa e abrir um consultório com um grande sofá onde sentaria os gamers deste país. Ou talvez trocasse o sofá por uma mesa e aplicava-se uma terapia dois em um!

A minha explicação é simples. Começa no título e acaba, uma vez mais, na mesa.

À primeira impressão o título parece demasiado grande. À segunda também. Depois confirma-se. E até se amputa para Walnut Grove. E mesmo assim, não deixa de ser algo enrolado.

Mas é aquele “Welcome” que mexe comigo. E depois de jogar o jogo percebe-se que o nogueiral é um sítio bom para se viver.

Há crescimento, há progressão em Walnut Grove. As estações e os anos passam de forma serena, sem grandes complicações. As contas são fáceis, o pior dos problemas resolve-se bem.

No final dum ano chato, triste até e quando entra um outro que se apresenta com a mesma cara de caso, há um jogo que nos dá as boas vindas a um espaço e a um tempo diferentes.

O jogo não é nada de especial, mas senta à mesa a família, convida os amigos e põe-nos para cima. Parece um lugar de aconchego na tormenta. Não é, é só mais um jogo. Mas tem isso de especial.

Bom ano novo! 

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