Opinião‎ > ‎Tabula Post‎ > ‎

Crime em família

Publicado a 13/04/2015, 10:08 por José Rôla
O Domingo de Páscoa é sempre um dia muito feliz. O deste ano não foi excepção. A família reunida à volta da mesa, o bom tempo a convidar a uns pontapés na bola com os miúdos, a luta inglória contra as amêndoas de chocolate e o folar…

Mas eis que eu, o Andrade e o Dominguez somos apanhados em flagrante! A jogar numa tarde que deveria ser passada em família! “Deviam ter vergonha”. Sobretudo eu, que procuro viver estas quadras com a devida profundidade.

Nós bem tentámos disfarçar: ah e tal, isto não é jogar, é trabalho. Ah e tal, o espanhol comprou o jogo e ainda não lhe pôs os coutos em cima. Ah e tal, o autor corta os pulsos se ninguém de Leiria jogar isto…

Mas nada resultou. Passamos rapidamente a proscritos. As nossas mulheres deitaram-nos aquele olhar gélido, os filhos pararam de nos pedir para empurrar as bicicletas e os nossos pais e sogros deixaram bem claro que para a próxima não trazem camarão.
Faz já 45minutos que ninguém mais na casa fala connosco e ainda não acabou a explicação do jogo, feito e refeito o primeiro “set up”! Entretanto chega o meu melhor amigo e padrinho do meu filho, que é médico: “eh pá isso parece complexo, a ver pelo tabuleiro eu diria que já vi cirurgias menos delicadas”.

Eu e o Andrade queremos meter tudo na caixa, mas o Dominguez impede-nos com dois argumentos decisivos: “o jogo é meu” e “já vou apanhar e vou…”

Eu arranco com a primeira ação, meto dois carros amarelos em testes fazendo-os sair pelo centro da linha de montagem e pimba, 4 pontos. Primeira asneira: abri já duas abébias para o Andrade que tinha um tile de projeto de carro amarelo e mete o seu “meeple” no primeiro espaço da track de ações, não vá o diabo tecê-las.

O diabo, para além de espanhol, nunca jogou isto. Escolhe ir às peças porque achou engraçada a cena da carta que roda e indica as peças disponíveis.
A Sandra, que não estava a jogar e é esposa do autor, não tarda começa a fazer das suas e ocupa a casa de ação que dava mesmo jeito usar agora.

Para nossa salvação há um cunhado que entre apanhar lá em casa ou jogar à bola com os pequenos, prefere a segunda. E foi assim que o esférico deixou de rolar sobre a relva e aterrou em cima da mesa, colocada estrategicamente ao ar livre, para evitar estorvos na circulação de pessoas e bens degustáveis dentro de casa. Voam automóveis acabados de testar, chassis e sistemas de travões, cadeiras da sala da administração, ideias luminosas e a Sandra e o pessoal de fato de macaco!
O autor da façanha nem desculpa pede, tem as costas quentes o sacana: uma mãe e três tias prontinhas a trocar o tal olhar por uma faca igualmente cortante.
Desta vez é o Andrade que segura as pontas e arranca decidido para o terceiro “set up” da tarde: “não é uma bolada dum sportinguista que me vai derrotar”.

Depois de se perceber o que cada ação faz, o jogo até é simples. A track de ações está bem esgalhada e as coisas fazem sentido. O tema encaixa. Mas cansa, o danado. 
As nossas bocas já estão secas e não há ninguém para ir ao frigorífico buscar umas lourinhas. A minha rainha fez chá, já vai a tarde perto das 18, mas fechou a porta da rua não fossemos nós sequer cheirá-lo!
Sinto-me miserável. O Andrade vai ganhar com dois palmos, é certo e a irmã só volta a falar para mim lá pró natal, com sorte. Até consegui fabricar e meter cá fora uns carritos, até consegui evoluir em 4 das 5 colunas do saber, mas não vai chegar. Estou a pagar a minha falha de dia de Páscoa.

O Dominguez acabou de rebentar o banco com um joelho, pesa pouco o rapaz! Esqueço o
 Natal.

É hora de jantar, acho que nos deixaram umas sobras. Ninguém fala connosco, todos nos viram a cara. 
Vemo-nos obrigados a ligar os “Ipads”, logamo-nos no Yucata, terminamos um RRR em curso e arrancamos com um Náuticos! As nossas mulheres parecem finalmente apreciar o nosso esforço para estar com o resto da família e os nossos filhos até ficam orgulhosos dos pais a mexer nas novas tecnologias. 

Talvez sejamos perdoados, afinal. “Mas que isto não se volte a repetir. Kanbanado?”

Não sei, não sei. Por mim vale a pena repetir!

Comments