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Protótipo dum crime

Publicado a 20/04/2015, 08:30 por José Rôla
Parece impossível! Depois daquela cena no domingo de Páscoa era bem tempo de eu ganhar juízo, arrepiar caminho e não arriscar ver as malas à porta de casa. Mas um deles disse que trazia foie gras e Sauternes…

Lá convenci a minha rainha que jogar um protótipo não é prazer, é trabalho, que é mais ou menos como a camisola que ela anda a tricotar.

E foi assim que abri a porta da minha humilde casa a três marmanjos de barba mal semeada e ainda pior colhida.

Desengane-se quem estiver a pensar que vou levantar o véu sobre o tal proto. Não me pagam para isso. O meu post é apenas para testemunhar o quão perto fiquei de ter de vir a discutir a custódia dos meus filhos em tribunal depois do que aqueles mafarricos fizeram.

“Os teus pais não te ensinaram que é preciso muito cuidado com as companhias?” - atirou ela no pico da zanga. “Mas ó rainha, um deles é teu irmão!” – tentei chamá-la à razão. “Por isso mesmo sei o que estou a dizer” – rematou ela com total fundamento, claro.

Que tenho de escolher melhor quem vem cá a casa. Gente com maneiras, pessoas que não necessitemos de amordaçar para evitar que toda a casa acorde, rapazolas que não passem a vida a mencionar nipples, em inglês, para disfarçar, que não se arrastem para casa às quatro da matina, depois de esgotarem da despensa tudo que é aperitivos fora do prazo de validade.

“Não foi com intenção” – tento eu justificar o indesculpável. “Ah pois, mas quem tem de limpar esta porcaria agora, sou eu.”

Ainda tentei amenizar a coisa oferecendo a sobra do fígado do bicho mas ela não é apreciadora e abri a porta para ouvir o que não queria: - “Olha, a ver se do tal vinho doce ficou alguma gotinha para amostra!”

Tentei safar-me de fininho: - “Aquilo é feito com uvas podres, querida”. “Bem, isso explica muita coisa, porque podre pareces estar tu desde que te deitaste!”

A coisa não apresenta meio de melhorar. O que quer que diga só me prejudica. Ainda tentei explicar que o culpado era inocente porque a mordaça lhe caiu para os olhos e ele não topou o que estava a fazer, mas não resultou: - “E os outros, lá por estarem amordaçados não foram capazes de dizer nada?!”

“Juras que não volta a acontecer?” - consegui finalmente sacar-lhe a declaração de vitória mais honrosa para mim.

Estou safo. Nunca mais vai acontecer porque nunca mais lhes ofereço café. Dificilmente algum deles alguma vez deixará um restinho de bagaço ou mesmo de vinho num copo. Não corro pois o risco de voltar a salpicar, bancada, armários de cozinha e mosaico junto à máquina de lavar loiça!

Ufa, foi por pouco.

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