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Brass



Brass, review com broa

Where there’s muck there’s Brass

Esta é a frase charneira para a última criação de Martin Wallace. Literalmente será intraduzível mas quererá dizer qualquer coisa como: “Onde quer que haja trabalho sujo haverá dinheiro”. Estamos a falar do nascimento de uma revolução. A revolução industrial. E estamos a falar desse nascimento no País onde ela, de facto, nasceu – Inglaterra. Em Brass, os jogadores funcionam um bocado como produtores de Lancashire cujo objectivo é o rendimento económico. Para fazermos isso poderemos construir minas de carvão, fábricas de ferro, portos ou fábricas de algodão. O produto final de Brass, digamos assim, é o algodão. Ele funciona como o elemento mais caro e de rendimento mais elevado em Lancashire. Mas para se conseguir que o algodão dê rendimentos elevados é necessário que haja carvão para construir algumas fábricas, é preciso saber controlar a procura de algodão nos mercados exteriores (sabemos que quando não há procura não se vende) é preciso controlar a melhor maneira de servir o mercado.

A fórmula que Martin Wallace encontrou de automatização da regulação do mercado de Brass só merece elogios. Tudo está oleadinho. Em resumo: só se vende se há procura; devemos produzir o que a região precisa; não desperdiçar recursos. E isto é Brass. Vamos aos detalhes.


É a procura e a oferta que mais jogam em Brass

Um jogo, duas velocidades

O mapa de Brass mostra-nos uma parte da Inglaterra, Lancashire, que viveu parte importante da Revolução Industrial. O jogo faz-nos uma recriação, mais ou menos fiel, daquilo que pode ser interpretado como um jogo de economia, “stricto sensu”, ou então um jogo de recriação histórica em que vivemos, de facto, dois períodos distintos: O período dos canais em que a circulação de mercadorias era feita por água, e o período do vapor, em que as mercadorias circulariam por comboio, numa muito maior eficiência e quantidade.

E se os jogos têm mérito quando nos passam sensações reais, Brass consegue-o como poucos. Durante o jogo nós passamos mesmo por duas fases distintas. No período dos canais, tudo é mais curto, os recursos são mais miseráveis, as exportações e vendas de algodão são muito mais difíceis, assim como a ligação entre as cidades.

No período do comboio o desenvolvimento nota-se a olhos vistos. Todos os investimentos dos jogadores são muito maiores, as ligações entre as cidades são muito mais eficientes e rápidas e a produção de algodão aumenta exponencialmente.


Este é o aspecto do tabuleiro na transição Canal/Rail - praticamente vazio!

O jogo sugere uma lógica de crescimento económico muito bem simulada e todos os jogadores sentem essa evolução na forma como passam, mais desafogadamente, a poder gerir os seus rendimentos. O problema, a dificuldade, está sempre na concorrência porque, inevitavelmente, os nossos adversários estão, tão ou melhor, preparados que nós para o advento do vapor.

Depois de Perikles

Quando a principal crítica à última obra de Martin Wallace passa pela quantidade obscena de sorte/azar que ela acumula temos medo. Temos medo quando pegamos na novidade (Brass) e achamos que pode ser coisa idêntica. Ufa! Não é. Apesar disso, as cartas foram a forma encontrada para o funcionamento do jogo. Uma vez mais Martin Wallace voltou às cartas como mecânica principal. A questão aqui, em Brass, é que as cartas não são, ou não parecem ser, tão determinantes quanto isso. Elas representam um papel mais de organização de funcionamento que de funcionalidade, de facto. E depois trazem uma componente que o autor nuca descurou e que faz parte da sua forma de fazer jogos – aquela pontinha de aleatoriedade. Mas aqui a aleatoriedade representa algo idêntico à aleatoriedade de Age of Steam, ou seja, é quase nula. Para além disso, existem recursos no próprio jogo que fazem com que essa aleatoriedade ou impossibilidade de realizar uma determinada acção, por falta de uma determinada carta, seja eliminada.

Confusão

Também é recorrente dizerem que os jogos de Martin Wallace não são polidos. É verdade. E Brass não foge à regra. É muito pouco polido, é até algo rude e cheio de coisas que parecem que atravancam o avanço daquilo. Quando estamos a jogar, no início pelo menos, enquanto ainda não estamos totalmente confiantes no que estamos a fazer, jogamos com muitas dúvidas, apetece-nos agarrar nas regras. Brass é um jogo duro e sujo tal como a frase que o promove. A pergunta a fazer é: compensa?


Liverpool no final do jogo. Cabe tudo no tabuleiro mas fica um bocado "sujo", é verdade!

Uma história…

A minha mãe faz, há já muito tempo, um prato de bacalhau assado na brasa que eu gosto particularmente. O bacalhau é simples. É assado na brasa. O problema, ou melhor, o complicado, é aquilo que o acompanha. A minha mãe faz, para acompanhar o bacalhau, uma coisa que leva couves – daquelas mais verdes escuras e que ela chama “couves de cortar”. Essas couves são cortadas miudinhas, tipo como se faz o caldo verde, e depois junta-lhes cabeças de nabo, também cortadas pequenas, batatas cozidas às rodelas e feijão-frade. Isto forma uma espécie de salada que, depois, é colocada no topo de uma cama de miolos de broa. Imaginem: uma travessa forrada a miolos de broa, com tudo isto por cima dos miolos de broa e, depois claro, o azeite que tão bem acompanha estas coisas que gostam de sair com o bacalhau e que faz com que tudo saia organizado para a boca como se equilibrasse a confusão dos ingredientes. O bacalhau, esse, mantém-se à distância, já assado, é desfiado e regado com azeite e alho. O cúmulo de tudo é que isto é mesmo bom é com broa. Ou seja, é quase como comer piza com pão mas, é verdade. Isto para ser mesmo bom, tem de ser com broa.

Numa primeira apreciação este é um prato estranho. Leva muita coisa misturada numa só travessa o que, por si só, pode afastar os menos corajosos. O pessoal mais “de cidade” dirá, quase imediatamente: “que horror, leva cabeças de nabo.” Outros, menos de cidade, dirão: “ eu acho esquisito levar tanta coisa”. Os outros, assim-assim, dirão, eu gosto de bacalhau assado na brasa mas é à lagareiro, com batatas a murro e azeite quente. Mas, queiram crer, que este prato saído de uma das mais de mil receitas disponíveis de bacalhau, pode ser uma verdadeira surpresa, assim se dêem ao trabalho de o experimentar. Há qualquer coisa de magnânimo naquela mistela de legumes. Compensa pois!

Paulo Soledade
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