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Graenaland


Primeiro vamos aos factos...

Aqui pela província andávamos com uma fezada, mais ou menos, grande em experimentar coisas especiais. E por coisas especiais refiro-me a jogos de editoras diferentes. Sobretudo, editoras menores. Passámos pela Splotter (Antiquity e Indonesia) e ficámos agradavelmente surpreendidos pela qualidade de cada jogo. Jogos de dificuldade imensa em arranjar estratégias, componentes bem razoáveis, preços absurdos e jogabilidade muitíssimo acima da média. Qualquer um dos jogos da Splotter que experimentámos, tinha regras soberbas - pequena excepção para a duplicação, aparentemente, desnecessária, dos rendimentos no último turno em Indonesia.

Graenaland trazia ainda, para mim, um fascínio acrescido. As voltas e voltas que eu dei em Essen para o trazer lembra-me, sempre, a espectacular visita àquela feira imensa. É um jogo que eu gosto de ter, como uma espécie de postal de boas viagens e sítios bonitos.
Posto isto, resolvemos, uma vez mais, abandonar o mercado maistream dos boardgames e partimos para uma aventura especial, uma espécie de produção z, de um jogo de uma companhia checa que, atenção, publica coisas porque existe uma associação. Nada como juntar os cacos para fazer um vaso.

As regras, também estas, eram muito boas. Alguém dizia que era uma espécie de advanced settlers. Outros diziam que era um civ game. Enfim, antes de experimentarmos ninguém ao certo sabia do que estava a falar mas, tentar não é mau. Pusemos os tabuleirinhos na mesa, entendemos as mecânicas - main player joga mas não joga, os outros são os outros mas jogam, enfim, original e, aparentemente, divertido.

No fim, ou para ser mais preciso, a meio ou pouco menos, já todos chegáramos àquela conclusão que, diga-se em abono da verdade, ninguém quer chegar, muito menos se forem todos a chegar a ela ao mesmo tempo - secante. Tinha tudo para resultar o raio do jogo mas não era possível. Aquilo não coisava nem saía de cima e nós começámos a perceber a ofensa, primeiro, de chamar-lhe advanced settlers, depois, de chamar-lhe civ game. Ninguém, na verdade, saberia ao certo, chamar-lhe coisa nenhuma que não fosse secante. Como é que uma ideia tão boa, que poderia ser tão divertida, com regras tão bem feitas, resultava em algo tão secante?! Faz lembrar aqueles filmes com belíssimos argumentos (ideias) que depois resultam em nada de jeito - ver aqui.

Mas eu não me rendi. Pensei que, depois de tanto alarido, algum crédito o jogo haveria de ter. Comecei a olhar para ele com outros olhos, sobre outra perspectiva. numa espécie de experiência sensorial, agarrei-me aos tabuleirinhos, coloquei-os na mesa e tentei outra abordagem. Outro ponto de vista. Encostei o nariz à mesa, olhei o jogo como se estivesse para lá do horizonte e... nada. Também não era fácil. Graenaland tem muito pouco de tridimensional. Tem umas casitas (settlements) que se vão colocando no tabuleiro para fazer crescer a nossa tribo de vikings e que valem pontos. O mais importante, os nossos herois, são tokens de cartão, planos, que, seguindo a minha perspectiva, não se viam. E eles são importantes porque nos fazem valer ainda mais pontos no tabuleiro ou mesmo retirar os dos adversários.

Plano Sensorial
Percebi então que tinha de tentar algo diferente. Olhei o jogo de pernas para o ar... era a mesma coisa. Nada de novo. Tudo igual. Continuava um jogo plano, chato, sem nada de muito especial. Depois lembrei-me. Vou buscar um prisma. Quando nada mais há a fazer, devemos recorrer sempre àquelas coisas mais absurdas, se preciso fôr. Neste caso era preciso. Agarrei no prisma, coloquei-o em cima da mesa, de Sol apontado, e vi o arco-iris. Finalmente! Olha, daqui vê-se o arco-iris. E então fiquei mais descansado. Arrumei o postal e guardei-o. Para a próxima já sei. Quando quiser ver o arco-iris vou buscá-lo e tiro-o da caixa. Mas não o vou jogar, não. Nisso não perco tempo. Não tem nada de muito especial nem agradável, sequer. Mas pelo menos posso ver o arco-iris.

Paulo Soledade

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