Críticas‎ > ‎2007‎ > ‎

Here I Stand



Este foi um fim de semana anormal. Anormalmente grande. Ou terá sido anormalmente pequeno. Ainda estou para perceber. É que, mesmo tendo jogado os típicos sexta-feira e sábado, deu-me ideia que o tempo foi diferente. Dois dias com menos jogos que o habitual mas muito mais proveitosos. Pelo menos é assim que o vejo. E tudo porque passámos pelo Here I Stand.

Já tinha havido uma primeira, mais ou menos frustrante, tentativa de jogar o grande jogo das reformas para 3 a 6 jogadores. Para quem não está familiarizado com o jogo, Here I Stand trata dos conflitos do século XVI na Europa, tendo como pano de fundo a Reforma e Contra Reforma. Seis poderes estão representados - Otomanos, Habsburgos, Inglaterra, França, Protestantes e o Papado - e cada jogador controla uma nação.
Primeiro hit - Here I Stand tem a grande vantagem de ser um jogo que, tanto resulta muito bem a seis, com cada jogador a controlar um poder, como jogado a três, em que cada jogador controla dois poderes. Como o quorum de sábado tem sido, habitualmente, de três jogadores, a opção de escolhermos o Here I Stand como coqueluche foi óbvia e acertada. Óbvia, porque não existem assim tantos jogos, com o peso deste, que resultem tão bem e tão equilibrado, com três jogadores. Acertada, porque Here I Stand é um grande jogo. Grande em tudo. Complexidade, rejogabilidade, estratégia, tema, mecânica, regras, tempo de jogo, interacção, enfim, é escolher.

Segundo hit - Nunca tinha jogado um jogo que me tivesse dado tanto gozo desbravar. Reparem naquilo que é, para um comum mortal eurogamer, agarrar pelos cornos um touro daquele tamanho. São 44 Quarenta e quatro 44 páginas de regras. Mas regras regras. Daquelas que estão cheias de informação, tutano e excepções. Estamos a falar de um jogo com uma complexidade tal que deixa o Die Macher numa perspectiva muito favorável enquanto family game.
Agora, verdade seja dita, nunca havia visto regras tão boas. E não estou a falar da forma como estão escritas, estruturadas, exemplificadas. Não. Estou a falar da qualidade das regras, pelas regras. Tudo faz sentido. A confusão que é ler aquele manancial de regras é ultrapassado no momento em que nos apercebemos que estamos a ver uma espécie de filme de guerra em que vemos alguém a tentar entrar numa cidade fortificada. Nessa cidade estão bravos guerreiros que podem refugiar-se dentro das muralhas do castelo e esperar por ajuda. Por vezes ouvem-se as trombetas da cavalaria em som de fundo e o brilho nos olhos de quem se refugiou dentro das muralhas mostra a esperança de quem acha que vai ser resgatado das mãos do mal. Às vezes vai, é verdade. Outras não vai. Alguém morre. Alguém escapa. O cerco à cidade intensifica-se. A cavalaria avança e os salteadores têm de fugir, enfim, um conjunto de situações, extremamente realistas.

Terceiro hit - Quem conhece jogos de sabor histórico, como por exemplo Twilight Struggle, sabe que são jogos feitos com grande detalhe e minúcia. Na minha opinião, embora sofra de algum défice experimental para a sustentar melhor, Here I Stand é "o jogo". Jamais vi um jogo tão complexo e ao mesmo tempo tão perfeito em termos de alinhamento histórico e interligação das várias personagens que fazem parte deste. Todas as nações têm a possibilidade de fazer alianças, declarar guerras com outros poderes, conquistar cidades que lhes dêem pontos vitória.
Mas há também algumas outras características que os poderes têm e podem exercer separadamente, com o objectivo de amealhar melhores condições para vencer. E aqui o rigor histórico é também assustador. Enquanto os reformadores de Lutero fazem as traduções da Bíblia em alemão, inglês e francês, a França de Francis I constroi o seu belo e magnânimo castelo ou a Inglaterra do mulherengo Henry VIII tenta, por meio de vários casamentos, um descendente macho. Imaginem o que é pedir licença ao Papa para se divorciar, casar posteriormente com outra mulher e lançar um dado para ver o que é que nasce! E se nascer macho, Edward VI, temos 6 VP e uma grande ajuda para a reforma em território inglês. Se por acaso não nascer nem o Edward nem a Elisabeth, vamos ter uma Mary I a governar os destinos dos ingleses com uma muito vincada presença católica e, portanto, com quase nenhuma chance de ver o país converter-se ao protestantismo. Claro que, havendo divórcios, a Catarina de Aragão, mulher de Henry VIII volta muito chateada para a sua corte e, não se cansará, daí em diante, de promover guerra entre os Habsburgos e a Inglaterra.
Este sabor histórico é uma das principais características de Here I Stand. É, no fundo, aquilo que torna este jogo tão especial. E não é por não gostarmos do tema (a Reforma) que deixamos de gostar do jogo. Confesso que o tema, ao contrário daquilo que acontece, por exemplo, em Twilight Struggle, não me é particularmete caro. É-me até bastante indiferente. Mas confesso que, se alguma coisa de bom este jogo trouxe, foi um aumento do meu interesse naquela época bem como em tudo aquilo que a envolvia.

Quarto hit - Tenho de falar da interacção. Como qualquer jogo de guerra, Here I Stand tem uma forte componente interactiva. A parte, verdadeiramente deliciosa, desta interacção passa-se na fase de diplomacia. Quase tudo pode ser acordado na fase de diplomacia. Oferta de cartas de um jogador em troca da libertação de um líder, acordar um movimento de tropas de um detereminado sítio para outro, acabar com uma guerra ou fazer um aliado, declarar guerra a uma potência, conceder divórcio, jogar determinado evento em troca de uma compensação qualquer.
E quem não está habituado (como eu) a que haja uma fase deste género, tão sublinhada em termos estratégicos, corre o risco de nunca conseguir ganhar um jogo de Here I Stand. Porque este é um jogo de contrapartidas, de facto. Por exemplo, é muito difícil sobrevivermos aos ataques inimigos ou fazermos os nossos ataques, se não conseguirmos ter connosco os nossos líderes. Provavelmente, a cedência de uma carta da nossa mão a um adversário para ir buscar um líder nosso pode não ser uma má troca. Até podemos estar a beneficiar o nosso adversário, sim, mas esperamos não ter de o fazer no turno seguinte e de uma forma muito mais pesada.

Quinto hit - Numa escala de zero a dez este jogo é um dez. O jogo pelo jogo, tudo aquilo que ele implica, o trabalho que nele está feito, a qualidade das mecânicas, das regras, do tema, de tudo o que o jogo traz.
Na escala do bgg o dez corresponde àquele jogo que se quer jogar sempre e que se pede para jogar sempre. Já cheguei à conclusão que esse jogo não existe mas, ainda assim, se existisse não poderia ser este. Here I Stand é um jogo especialmente pesado e especialmente longo mas especialmente bom. É, acho eu, o jogo mais bem feito que eu conheço. Não deve haver muitas pessoas que achem este jogo mau. Posso até perguntar a todos os que o conhecem - "Então e se o jogo demorasse 3 horas? Era um 10, não era?"

Material: 2.5/3 Interacção: 3/3 Mecânica: 3/3 Tema: 3/3 Estratégia: 3/3 Tempo/Diversão: 2/4 Regras: 1/1
Clasificação: 17.5/20

Paulo Soledade

Comments