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Medina



Já estou farto de escrever reviews. Tenho a sensação de que me estou a repetir. Ainda por cima começa-me a faltar o jogo de cintura necessário para fugir ao texto formatado de "críticas de jogos". Eu gosto das "críticas de jogos". Só não gosto é de as escrever. E, então, tenho de tentar reinventar-me cada vez que penso num jogo qualquer sobre o qual eu quero escrever. E não é fácil. Porque gosto de escrever sobre os jogos e não, sobre "os jogos". Parece igual mas não é. Eu explico.

Para algo completamente diferente... Imaginem um tipo num deserto qualquer da Arábia. Podem chamar-lhe Lourenço, não interessa. Imaginem que esse tipo até gosta de tâmaras com bacon e dava um dedo mindinho para comer um bom couscous. Daria também o outro mindinho para experimentar um leitão aqui à moda de Leiria, muito bem assadinho mas, como estamos a falar da Arábia, vamos presumir que o que ele quer é mesmo um couscous caseirinho. Como não bebe bebidas alcoólicas, lá está, tem de se contentar com água. Quer dizer, ele também pode procurar uma soft drink qualquer americana desde que, e só desde que, não seja um fundamentalista anti americano que nada ingere que venha desse País. Resumindo, o que é americano não é kosher para um Árabe chamado Lourenço que vive algures na Arábia.

Um dia à tardinha, muito à tardinha, ele resolve criar uma religião. Bem, não pensem que é criar, mesmo criar. Não! É ser avisado pelo "profeta mais que tudo" de que era um escolhido para começar a pregar. Em alguns outros pontos do globo, mais ou menos distantes, também houve, pelo menos, mais uma Pessoa assim. E pronto. O Lourenço, que era um Árabe convicto mas que poderia, até então, arriscar um leitão daqui, passou a ser um árabe dali, com um couscous de lá também, sem alcoól para o animar e com um sentimento missionário só explicável pela quantidade de calor que as crianças sofrem na moleirinha e sob determinadas condições.

Quando o Lourenço acordou chamava-se Maomé, era um profeta avesso a caricaturas de mau gosto - dirão alguns - e adorava kebab. O problema dele foi a generalização do kebab. Achou que aquilo só poderia ser obra do demónio, como se diz noutras religiões. E então lá montou um estaminé religioso em que se poderia comer couscous, kebab tradicional (nunca o generalizado vindo dos estates), tâmaras com bacon e soft drink engarrafado nas traseiras de uma madrasa.

Quando ele terminou o seu reinado de profeta, nem ele fazia ideia daquilo que esperava esta geração que agora escreve - um mundo de bebidas e comidas que ignoram o Lourenço e deixam o Suleimão com uma espinha atravessada na garganta.

Pronto! Agora vamos ao jogo. Medina é sobre absolutamente nada. Chama-se Medina porque tinha de ter um nome. Havia até quem quisesse chamar-lhe outra coisa mas, a editora na altura achou que "outra coisa" era um nome demasiado vago para aquilo que eles pretendiam. E então chamaram-lhe Medina. Um dos argumentos que eu ouvi, dados pela direcção da editora, foi - "Ah, ainda não havia nada com o nome da cidade natal do profeta e achámos que assim não teríamos nada de mau a acontecer-nos aqui neste 57º andar desta torre de Munique."

Eu, quando ouvi este argumento fiquei incrédulo e pensei. Terá sido por isso que criaram o On the Underground no Reino Unido? Hummm! Será que o mapa de Espanha do Age of Steam veio com um atraso importante? São tudo perguntas para serem respondidas pelos fazedores de História - nós.
Por outro lado, para além do nome, Medina tem coisas muito interessantes. Sim, não pensem que o jogo não presta. Pelo contrário. Há um conflito latente entre os jogadores pelo espaço da cidade. O timing de construção de edifícios é fundamental e, last but not least, os estábulos, as pessoas e as muralhas. O jogo é todo abstracto, tem muitas e boas decisões, difíceis, tem uma jogabilidade excelente, é muito tenso, bem equilibrado enfim, um muito bom jogo. Joga-se em menos de uma hora. Nota 7. Mas à vontade!

Paulo Soledade

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