Críticas‎ > ‎2010‎ > ‎

Hansa Teutonica

A última vez que escrevi uma crítica a um jogo foi a Power Struggle. Power Struggle é um jogo que tem opções estratégicas interessantes, é disputado ao milímetro e é divertido. Esta característica - divertido - é aquela que eu mais realço em Power Struggle. Muito mais que todas as outras.
Hansa Teutonica, o jogo de que hoje falo, é um jogo chato, aborrecido, entediante, repetitivo mas brilhante! Ou seja, se por um lado temos uma linha de gráfico sobre entretenimento, que no caso de Power Struggle, toca nos píncaros, no caso de Hansa Teutonica, esta linha fica bem colada em baixo. Se formos buscar o desafio estratégico que é Hansa Teutonica, então, temos uma linha de gráfico que excede todas as expectativas e que torna este vencedor do Globo de Ouro do jogo aborrecido do ano, num desafio à competência do melhor dos eurogamers.

Eurogame, cubos
O põe cubinho tira cubinho, vai buscar cubinhos, troca cubinhos, paga cubinhos resume muita da experiência que é jogar Hansa Teutonica. O jogo é sobre a Liga Hanseática e o estabelecer de rotas entre cidades desta liga mas, entre isso e o estabelecer linhas telefónicas na Ilha do Faial, a coisa dá no mesmo.
Se o lúdico é o coração dos jogos, como é possível gostar-se de um jogo assim, chatarrão? Não é assim tão fácil de explicar quanto isso. Na verdade todos os jogadores - eu não sou excepção - têm botões que estão cá para serem pressionados. 

Uns são os botões do lúdico, do entretenimento, outros são os botões do desafio, do cerebral. Digamos que estamos a falar dos dois lados do mesmo cérebro - um lado mais canhoto e criativo, outro destro e, tacticamente, irrepreensível.

O escritório que cada jogador de Hansa Teutonica tem, está definido em vários poderes que podem ser aumentados conforme as opções do jogador. Ou podemos ter acesso a mais acções por turno ou podemos receber mais cubos quando optamos por receber ajuda ou podemos aumentar a nossa mobilidade no tabuleiro, entre outras coisas mais implícitas. O desafio da escolha é o que de melhor este jogo tem. Ninguém pode ficar indiferente às escolhas imensas que estão disponíveis e ninguém consegue afirmar que qualquer uma delas é de fácil decisão. Aumentar o número de acções parece óbvio. É a primeira opção que cada jogador irá escolher porque é a mais óbvia. Mas é também a mais disputada, precisamente porque a mais querida. Quem sabe a desvalorização e consequente "baixa de pressão" para conseguir as outras acções também elas importantes, não decidam a favor destas e se revelem igualmente importantes?! A escolha, a decisão, a autonomia e a dificuldade tornam Hansa Teutonica num belíssimo exercício de matemática aplicada ao conhecimento humano. Ler nas entrelinhas das intenções dos adversários procurando uma aberta, uma oportunidade, mas continuando a contar o número de cubos que esta ou aquela acção representam.


Hansa Teutonica repete até à exaustão as mesmas acções "over and over". Parece que estamos sempre a jogar o mesmo cubo ou a rejeitar o que fizemos antes. Quando estabelecemos uma rota entre duas cidades que previamente ligámos com os nossos cubos, esses cubos são retirados e novamente colocados na pilha dos não disponíveis. É como se o que fazemos tivesse de pressupor um já desfizemos. É estranho de explicar mas, na verdade, trate-se de um jogo que repete a história de Penélope em que os caminhos funcionam como um infinito cachecol que se cose e descose escolhendo o timing perfeito para suceder.

Andreas Steding, o autor, merece-me uma palavra de apreço pelo que conseguiu. O primeiro dos jogos dele que conheci - Power & Weakness - é um jogo desafiante e intenso mas, ao mesmo tempo, demasiado brain burner para o apreciar mais amiúde. Não gosto muito de o jogar porque o desafio, apesar de ter coisas, essencialmente, positivas, é desenhado num formato de dois jogadores, com um tabuleiro apertado e muito mais claustrofóbico. Aliás, foi isso que mais gostei no jogo. Ainda assim, tornou-se num massacre de exercício mental de um contra um, difícil de ultrapassar e decidido demasiado milimetricamente.

Com Hansa Teutonica, apesar de estarmos no mesmo milimétrico sistema de decisões, a crueldade do espaço circundante não é tão óbvia e resta-nos uma esperança de fuga aparente que podemos ir tentando no decorrer do jogo. Os caminhos que nos vão surgindo são diferentes de turno para turno embora as setas sejam sempre idênticas. Recebemos a informação de que temos de tratar os cubinhos uma e outra vez como das vezes anteriores mas podemos procurar outras paragens, outros objectivos, apresentar um cachecol quase acabado.

A treta de tudo isto, de jogar Hansa Teutonica, é mesmo ter de passar pelo processo. Faz-me lembrar a lógica familiar de sábado à tarde em que aquele armário ou aquele sótão ou que aquele quarto têm, finalmente, de ser arrumados. "Que seca ter de ir arrumar aquilo agora" - é o comentário normal. Não apetece nunca pegar nos desarrumos e tentar forçar uma saída airosa. As coisas têm pó, dão trabalho, chateiam. De vez em quando lá aparece aquela foto que já não nos lembrávamos ou aquele CD perdido algures ou aquele livro de pó que agora cheira a novo. De vez em quando estas coisas aparecem como um docinho. E no fim, no fim de tudo arrumado, depois de todo o trabalho, toda a chatice imensa salpicada de alguns encantos esporádicos de saudade, fica o trabalho final. Um resultado justo de dever cumprido. Um sótão orgulhoso, um quarto brilhante, um móvel acetinado. 

Hansa Teutonica pode ser isto tudo - um quarto de águas furtadas num sótão arrumadinho com um móvel acetinado ao canto. Mas pode-o se o arrumador estiver virado para meter cubinho, tirar cubinho, buscar cubinho, trocar cubinho, pagar cubinho...

Comments