Críticas‎ > ‎2010‎ > ‎

Here I Stand

Quando e sempre que começo uma review gosto de dizer (pelo menos pensar) um adjectivo que caracterize o jogo. Mais ou menos como: "este jogo é do camandro" ou "este jogo é puta que pariu"! Here I Stand não me sugere nada em particular, um adjectivo isolado que o possa definir. Pensei, pensei, pensei e... nada! Poderia escolher espectacular, do caraças, podres de bom, interessante, especial, enfim, um sem fim de adjectivos. A questão, a grande dificuldade que sinto, é mesmo o facto de achar todos estes adjectivos pouco claros e poucos de tamanho para o descrever. Não que esteja a falar do melhor dos melhores jogos, não é bem isso, é mais porque estou, realmente, a falar de um jogo entre jogos, um caso muito especial que, caindo na graça deste vosso servo, deixou uma marca indelével, quer na minha realização de jogador quer, inclusivamente, na minha formação.

Em todas as culturas, as palavras que existem para descrever as realidades mais importantes e mais comuns, existem em quantidades maiores que as actividades mais raras ou menos usuais. Trocando em miúdos, para um português comum, o uso da palavra "gelo" serve o propósito de falar de água em estado sólido. Para um Esquimó comum (também os há) a palavra "gelo" deve ser, mais ou menos, imagino eu, tão genérica como comer bacalhau é para nós. E ainda bem que me lembrei do bacalhau para explicar o que quero dizer. Bacalhau há de mais de mil maneiras. É uma coisa importante, para nós. Assim como as refeições do dia ou até os tipos de pão que existem. Temos o pequeno-almoço, lanchinho da manhã, almoço, lanchinho da tarde, boquinha de meio de meio de tarde, jantar, petiscada de fim de noite, seia... Ainda podia ir mais longe, falando das expressões idiomáticas sobre comida, refeições e sucedâneos: "fazer uma boquinha" (já disse), "petiscar", "mamar", "enfardar", "comer" (claro), "abichar". Outras haverá que agora não me ocorrem. Já sobre o pão é igual: carcaças, carcacinhas, papo-seco, bico, baguete, saloio, caseiro, de forma, enfim, a lista era quase interminável. Mas não há, como não acho que seja possível haver, uma palavra que diga "gelo" de forma tão completa como gelo fala de água sólida, sobre o Here I Stand.

Os mais destemidos agarram o jogo pelos cornos e chamam-lhe jogo de guerra. Num destes últimos sábados, um sábado comprido e cumprido, com algumas horas de Here I Stand, terminou com umas míseras escaramuças, creio que cinco, seis, depois do mesmo número de horas a jogar. Ou seja, um jogo de guerra com uma batalha por hora, em média, não é um jogo de guerra. Pelo menos não é "só" um jogo de guerra (voltamos ao adjectivo redutor). O jogo reveste-se de um interesse muito mais abrangente, do ponto de vista estratégico, que um tradicional jogo de guerra. Como cada nação cumpre um objectivo diferente, tem uma forma diferente de ver o mundo, o jogo funciona, também e forçosamente, de forma diferente para cada jogador:
O Otomano é o rei da tareia. Suleimão a liderar e a fazer das tripas coração numa djihad antiga e não cabendo na sua própria ambição. Se alguém procura conflitos corporais básicos, sem muita força diplomática para se espraiar, então é com os Otomanos que deve contar. A pirataria ao largo do Mediterrâneo é uma constante e a tentativa de trazer riquezas para as suas fileiras não olha a meios.

O Habsburgo, Carlos V, com o seu império que vai de Espanha à Hungria tem uma trabalheira terrível para manter as suas fronteiras intactas e incólumes à passagem do furacão Lutero. A Reforma atinge o Império Habsburgo sem piedade e é aí que as linhas imperiais começam a torcer. A pressão contínua da França, de um lado, e dos Otomanos, pelo outro, forçam Carlos V a ter de jogar diplomaticamente e com algumas concessões, parte da sua glória.

O Inglês é o diplomata por excelência que tem, como principal objectivo, a cedência do Papa para que este lhe conceda o divórcio e depois tentar conseguir um herdeiro homem que prolongue a sua dinastia. Henrique VIII, de sua graça, o tal que casou 7 vezes, precisa mesmo de casar para arranjar quem lhe dê um macho. Tirando um ou outro "quid pro quo" militar, nomeadamente na Escócia ou até com os Habsburgos ou Franceses nos limites fronteiriços, o Inglês de muitas mulheres deve preocupar-se em valorizar a Reforma de Lutero em terras de sua majestade (ele próprio).

Francisco I, um homem das artes e da cultura, sofre algumas entaladelas iniciais com a pressão, quer de Carlos V quer do Papa Leão X. As estruturas do Estado Francês são fortes e, de alguma forma, seculares, com influências sublinháveis em cidades como Milão ou Turim para além da natural aliança com os Escoceses. Muito no limiar de enfrentar uma excomunhão por parte do Papa, Francisco I também tem de prezar a sua virtude diplomática e tentar levar a bom porto a sua forma de encarar o mundo - com alguma diplomacia mas, sobretudo, muita decisão e firmeza nas suas acções.

Leão X, o Santo Papa, é o grande todo poderoso de uma época em que a contestação de um homem quase desconhecido de Wittenberg o começa a incomodar. A sua força mede-se pelos poderes instalados e pela forma como, lentamente, tenta que a sua força não decresça de forma irremediável. Apesar de não ter sobrevivido a muitos anos de Reforma (foi muito cedo substituído por Clemente VII) foi um Papa com uma importância de sublinhar. A sua função extravasa largamente o aspecto religioso deste conflito europeu e mostra-se ao mundo como, realmente, deve ser um chefe de estado.

Martinho Lutero. O homem que mudou o mundo, o homem que pôs em causa todos os dogmas da igreja de Roma e que, com as suas 95 teses, apresentadas em Wittenberg, começa por tentar converter parte importante de uma região da Europa central que nele acreditou e que com ele seguiu. Acompanhado de outros seus colegas reformistas, apostado em dar a conhecer ao mundo as suas ideias e ideais, Lutero é a base das crenças de largos milhões de pessoas. Inicia a sua diáspora cingindo-se aos aspectos religiosos da Reforma mas, cedo, inicia a campanha militar, criando um pequeno exército para o ajudar nos seus objectivos.

E cada uma destas nações lida com a Reforma de maneira diferente. Podemos mesmo dizer que é há mais que um jogo dentro do jogo. E, se é verdade que, como o próprio autor do jogo admite, não há uma única regra difícil de perceber em Here I Stand, também é verdade que esta tarefa abrangente de criar um jogo de vários jogos criou um colosso de pequenas nuances que pode afastar o jogador menos destemido e o menos corajoso. O segredo, dizem os entendidos, esté em ler as regras básicas de movimentação militar e de disputas territoriais simples para se entender o grosso da coisa e, depois, cada um para seu lado, ler as especificidades das nações que controlam. Faz sentido!

No outro lado da moeda está o sentimento de incompetência para se conseguir domar um jogo destes, com equilíbrios tão ténues e difíceis de perceber. Se o Otomano não tiver força não consegue pressionar o Habsburgo que, por sua vez, se for demasiado atacado no Ocidente pelos franceses e se correr o risco de levar também com os ingleses fica demasiado vulnerável e desgraça o balanço do mapa. O Papa tem de se haver com o Lutero, o Francês com o... enfim, tudo muito ligado por pequenos detalhes e preso por muito finos arames que nos descontrolam das primeiras vezes que jogamos. Dá a perceber a óbvia incapacidade de gerir o mundo de um dos seis lados da mesa. As cartas vão-nos surgindo como uma linha de história que, alguns de nós, vão recordando, outros, aprendendo pela primeira vez mas que, sobretudo, deixa a marca de um acontecimento importante que moldou o mundo como ele é agora.

E depois temos a diplomacia a torto e a direito. Prometer favores, concretizar ameaças veladas, ameaçar confrontos, revelar planos. Tudo. Vale tudo. E força-nos a entrar no comando da nação com que jogamos, faz-nos sentir um poderoso lider de uma tribo real que disputa o poder e as ligações da história. Escrever história assim é uma experiência que extravasa o próprio jogo e o projecta-nos numa realidade virtual quase perigosa em que nos apetece mandar fazer coisas em vez de as fazermos. Recorrendo à analogia do pão, apetece-nos criar novas frases, novos conceitos. Pedir, ao mesmo tempo, carcaças, pão de forma e bicos. E o poder que é chegar ao balcão e dizer: "queria um bico"! Mesmo que os dados não lancem a fé de Lutero à primeira, creio que não deixará de se fazer história com o estilo de quem promete um futuro melhor e mais justo. Deixemo-nos de histórias menores e de conflitos residuais. Lutemos a uma só voz e com a alma embargada gritemos: "Here I Stand"!

Comments