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London

"Bom dia meus senhores e minhas senhoras, estamos neste momento no autocarro da Big Bus Tours a iniciar a nossa viagem em Londres. Por favor permaneçam sentados e escolham o canal audio referente à vossa língua. Pressionem 1 para Português, 2 para Francês... "


Londres é, por muitos, considerada a capital do mundo. Começamos esta crítica com um lugar comum. Londres tem, provavelmente, algumas das melhores atracções turísticas que há para oferecer. No mundo. Londres é, à partida, um grande tema.

London, o jogo, reconhece pouco de Londres. Ou melhor, eu, em London, reconheço pouco da Londres que tanto gosto.

Martin Wallace sempre me habituou a seguir o seu próprio caminho na indústria dos jogos de tabuleiro. Não digo que fosse uma espécie de D. Quixote que remava, romanticamente, contra as massas e contra aquilo que as pessoas quisessem comprar mas, reconhecia-o como uma personagem algo original e que não se vendia aos projectos mainstream que o público em geral procura. Quando vi anunciado o jogo London, uma peça do seu País com uma das mais ricas histórias do mundo para contar, fiquei entusiasmado e algo impaciente pela sua chegada. Teria de ser um jogo temático, cheio de sumo, de história e estórias para contar, algo que Wallace tão bem sabe fazer. Mas, infelizmente, este London revelou-se mais uma forma sagaz e igual a tantas outras de realizar uma obra que desafia o seu próprio passado enquanto autor e não chega, sequer, a poder competir para jogo sobre Londres. 


A minha maior desilusão, depois de ter acabado de visitar Londres pela primeira vez na vida, prende-se com o facto de nada ter aprendido com London. Ou melhor. Não foi bem nada. Uma única coisa eu aprendi com este jogo e que, supostamente, contará a história desta belíssima capital: Wren. O senhor Wren, dizia a voz de comando do autocarro da Big Bus Tours no canal 8 (audio em português) foi o senhor que reconstruiu alguns dos mais importantes edifícios da cidade após o grande fogo de 1666. Bom, o que eu esperava, na pior das hipóteses, era poder eu mesmo, com simplesmente dois ou 3 jogos de London no bucho, explicar ao senhor do Big Bus Tours metade do que ele me ensinou sobre Londres. Ou seja, eu esperava um jogo como o Liberté que me explica a revolução francesa, ou o Brass que me explica a revolução industrial em Inglaterra ou o Automobile que me explica a indústria automóvel ou ainda o Bizantium que escreve a história do Império. Nada disto me trouxe London.


"A Trafalgar Square com o seu imponente monumento em homenagem a Lord Nelson a Nelson's Column. Quem quiser descer aqui pode depois visitar a National Gallery e a National Portrait Gallery..."


Contextualizando, a cidade de Londres foi devastada por um terrível incêndio em 1666. Tudo, ou quase tudo, teve de ser reconstruído e houve uma mobilização geral da população para conseguir reabilitar a cidade. London recria esta reconstrução, com ocupação dos primeiros bairros na cidade, criação de linhas de metro e... é só. Isto é o que há no tabuleiro, em Londres mesmo, o resto, as cartas, ficam à frente dos jogadores. Começa por aqui a minha crítica mais negativa ao jogo. Estamos perante um jogo de cartas e não um jogo de tabuleiro. Foi muito triste para mim reparar que nada de Londres havia sido recriado, de facto, com uma ou outra excepção relacionada com o início dos bairros da cidade (borroughs), o metro e as ligações pelas pontes. O tabuleiro existe mas é quase desnecessário e podia ter sido retirado. Temos um tabuleiro nada bonito mas funcional com os borroughs de Londres mais importantes e com a obrigação por parte dos jogadores de iniciar a sua viagem pela cidade ali. Estes bairros dão benefícios mediante um custo de construção: cartas e pontos vitória. 


"Covent Garden, o mercado das flores do filme My Fair Lady onde podem comer castanhas assadas embrulhadas em jornal. Ao lado, têm também a Royal Opera House..."


Está claro que, como um jogo de cartas que se preze, são elas que mandam. Existem 3 baralhos para haver uma certa cronologia nos acontecimentos. As cartas são simplesmente cartas. Umas fazem umas coisas mais especiais, outras estão mais ligadas aos Pontos de Vitória e não fazem nada de especial e outras ainda fazem coisa pouca e pontos nenhuns. Cartas são cartas e aí, nesse lugar dos baralhos que se jogam para fazer as melhores combinações possíveis e vencer o mais sagaz dos jogadores de cartas de London, o jogo está bem feito. Está bem feito porque, de facto, ganham os que melhor fazem as combinações de cartas que existem. As cidades dos jogadores, como disse, são representadas por cartas. A inovação aqui está na forma, mais que no conteúdo. Formam-se pilhas de cartas em frente de cada jogador, representando a sua cidade. Cada pilha de cartas representa uma acção que pode ser activada e também uma despesa, sempre que se activa a cidade, ou se executa uma das acções do jogo que se chama "run city". Uma refinação e toque Wallace tem que ver com os pontos negativos. Aqui chamados de pontos de pobreza. Por uma qualquer razão (efeitos de jogo, digo eu) quando alguém executa as suas acções com as cartas que tem, ganha pontos pobreza. Verdade seja dita que, mesmo assim, os bairros que temos no tabuleiro descontam-nos alguma dessa miséria e trazem-nos boas notícias, assim como algumas das cartas que acabámos de activar mas, não deixa de constituir, provavelmente, o maior Wallacianismo que o jogo tem. 



"Paramos agora na Parliament Square.  Podem descer agora para visitar as Houses of Parliament , Tate Britain, Westminster Cathedral, Westminster Abbey. O Big Ben aqui ao lado e ao longe, do outro lado da Westminster Bridge,  vêem o London Eye. Iremos agora pela Buckingham Palace Road visitar o Palácio com o mesmo nome e seguimos até ao mercado de Notting Hill..."


Então temos, em London, uma acção de construir borrough, uma de jogar cartas para a nossa frente formando a nossa cidade, outra de activar essas cartas que temos à nossa frente e outra ainda de poder ir ao baralho buscar 3 cartas. Estas são as acções que os jogadores têm disponíveis para jogar. A questão aqui, em London, é mesmo, na minha opinião, a falta dessa decisão de que acção tomar. Quer dizer. Os jogadores, tomam a decisão da acção que vão executar mas, ela é sempre tão óbvia, tão óbvia, pelo menos em 99% das vezes que quase se torna numa não decisão, numa evidência. E é aqui que London falha redondamente, na minha opinião, enquanto jogo de estratégia estimulante e desafiante. Eu gosto de tomar decisões diferentes dos meus parceiros de jogo para testar coisas novas e para desafiar as probabilidades. E gosto disso nos jogos de Wallace em geral e, para falar de um, Brass, em particular. Em London, todos, sem excepção, vão fazer um Borrough como forma de ir buscar cartas, depois jogam essas cartas, depois activam essas cartas. Voltam a ir fazer um borrough para ir buscar mais cartas, depois jogam essas cartas e activam essas cartas. Same old, same old. Um bocado chato e completamente linear no caminho de cada um. Claro que podem existir excepções. Óbvio. Servem para confirmar a regra. Mas aquilo que o jogo pede para fazer não é decidir as acções a tomar mas sim as cartas a ir buscar/descartar e activar. E eu não gosto disso.


"...Marylebone Road, a caminho do Regent's Park, temos o Madame Tussaud's..."


London não tem nada, absolutamente nada, que me faça rever a Londres que me ficou no coração. A Londres do West End, da City, da Picadilly Circus, das compras, dos musicais, de Camden, do Tamisa  do Hamley e do Harrods. É um London de plástico com muito pouco para mostrar sobre a cidade capital do mundo e sobre aquilo que ela de melhor tem para oferecer. Eu não pretendia um jogo que me oferecesse uma viagem a Londres mas, no mínimo, um jogo que passasse para lá do título e que me mostrasse algo melhor, aquilo que a cidade merece. É um mau jogo? Não. É até um jogo bem feito, não me parece que tenha defeitos, está bem testado, joga-se bem, sobretudo com 3 ou 4 jogadores. A dois jogadores é algo arrastado devido à quantidade de cartas que está no baralho (talvez esta quantidade devesses ser reduzida com menos jogadores). Temos um jogo do mundo de cera, uma cidade quase virtual num reino qualquer longínquo que, de facto não existe e, pior, parece nunca ter existido. Um sucesso vestido de cartas, para jogador habitual e transeunte usarem, verem e reverem, fotografarem com os eventos de cera baseados numa história magnânima que não é representada aqui. Tal como o Madame Tussaud's. Muita cera, pouca mecha!


Nota: 6


Outras opiniões: Sentieiro 7; Rôla 6.7; Carlos 7;


soledade@spielportugal.org


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