Destaques‎ > ‎

35 euros

Publicado a 28/11/2010, 13:02 por Nuno Sentieiro   [ atualizado a 28/11/2010, 15:21 ]



Com o aumento de jogos cá em casa, a uma velocidade consentânea com a aceitação progressiva por parte da minha mulher dessa realidade e com o esforço de contenção que me tenho imposto e que avivo após os cada vez mais repetidos rebates dos nossos economistas, vejo-me na necessidade de repensar o arrumo das caixinhas.

Comprar um móvel novo não parece grande ideia, quer pelo que atrás ficou dito, quer porque, mesmo a preços Ikea, o que irei gastar daria para pelo menos mais dois joguitos!
A propósito, devo confessar que começa a ser muito usual o meu cérebro fazer contas em jogos e não já em escudos ou euros. O montante de referência é 35€. Podia ser o “Wallace”, que, portes incluídos, está cotado aí pelos 50€, mas 35€ é, convenhamos, o valor mais corrente e não tão penalizante à primeira vista, tipo aquele efeito dos 19,99€ que faz toda a diferença para 20€!

Há dias dei-me conta de que, se conseguir um almocito grátis (sim, há almoços grátis) de quando em quando ou passar (expressão que a minha avó usava com toda a propriedade) apenas com uma peça de fruta e uma barrita de cereais uma ou outra hora de almoço, conseguirei poupar os 35€ ao fim de 5 dessas ocasiões. Isto quer dizer que ando a almoçar por cerca de 20 cêntimos de jogo de tabuleiro e que, a concretizar-se a cogitada aplicação das poupanças, estarei a fazer ouvidos de mercador aos conselhos dos tais economistas.
Mas este raciocínio monetário não tem limites.

Custa muito ter de dar dois jogos de tabuleiro por uma consulta no pediatra, mesmo que a razão recorde tratar-se dos meus filhos! E como é penoso gastar 3,2 jogos de tabuleiro por mês em água e luz e 3,4 em aquecimento…

Na hora de deitar contas à vida na perspectiva duma viagem de fim-de-ano assusta perceber que a loucura nunca ficaria por menos de 23 jogos de tabuleiro, 25 ou 26, no mínimo, se o destino for a Alemanha!

O mais perigoso é estar-se a passar com esta “moeda” o que ocorreu com o euro. Tal como aconteceu com a bica ou o papo-seco, de repente despendemos num jogo o dobro do que racionalmente estaríamos dispostos a dar antes da introdução desta nova unidade monetária, isto é, antes de nos familiarizarmos tanto com a ideia de mais um joguito que perdemos o tino ao real custo do mesmo (os tais 5 almoços ou metade da consulta do pediatra – que é mais ou menos até àquela parte do “então o que é que o menino tem?”).

Há uns meses atrás, no regresso dumas mini férias “cá dentro”, apanhámos uma multa de trânsito que nos deixou abananados. Enquanto eu fazia contas em jogos de tabuleiro, a minha mulher, que vinha a conduzir e não teve culpa nenhuma do sucedido, fez contas em tapetes novos e decidiu deitar mãos à obra, mais ou menos como eu e os almoços. Serão após serão o tapete lá foi crescendo e hoje, para além do esperado aforro, teve o condão de nos devolver à grandeza das nossas competências, que parecem adormecidas desde os trabalhos oficinais da secundária, recordando-nos que não temos que comprar tudo, que há muita coisa que podemos fazer para evitar o continuado consumo desabrido que agora pagaremos com língua de pau.

Após esta frase de reconciliação com os atrás referidos economistas, devo acrescentar que o mesmo tapete é um extraordinário inibidor de velocidade na estrada. Para a minha rainha porque, apesar do orgulho na sua obra, não quer passar mais serões a tricotar, e para mim que, numa repetição do azar, não me livraria de um longo jejum de jogos de tabuleiro!

Para aplacar o meu sentimento de culpa a seguir a cada encomenda na Planeton, dou comigo a pensar nos gastos que os meus amigos têm com as suas pancadas. O meu cunhado joga golfe, a coisa não lhe deve ficar por menos de 2 ou 3 jogos de tabuleiro por mês; um outro amigo não perde um jogo em Alvalade, 1 jogo de tabuleiro por mês e muitas desilusões; uma colega tem a tara dos sapatos, também vêm em caixinhas mas custam bem mais do que um jogo, têm de ser comprados aos pares e duram bem menos!
A bem da nação, os passatempos deles deixam grande parte das divisas cá no país. Já os jogos levam-nas para fora. Outra mais-valia dos hobbies dos meus amigos é que não têm as caixinhas sempre a lembrar a tal culpa: o golfe já foi, o futebol é mesmo para esquecer e os sapatos… os sapatos são um bem de primeira necessidade.

No meu prato da balança pesa positivamente o facto de amortizar o investimento cada vez que a caixa vai à mesa: o Agricola está nos 10 euros, o Puerto Rico já só custa dois euros e 30 cêntimos por sessão, os dados do Pikomino já se lançam de borla…
Haveria ainda aqui lugar a uma série de considerações sobre o custo sopesado de um jogo de tabuleiro. Assim à maneira de quem compra fruta e a acha mais ou menos cara em função da peça que resolveu apreçar na sua mão. De como se considera barato ou caro em função da quantidade de tralha que o acompanha, da qualidade desses componentes ou, em primeira e última análise, da sua qualidade intrínseca, ou seja, expondo a ideia de forma mais segura, do quanto dele gostamos ou não.

E faria também sentido falar dos custos extra, desde os portes até às cervejas e ao queijo!
Mas não convém que um texto que fala do preço se alongue mais do que qualquer outro que nos apresente a caixa, aborde o tabuleiro, destaque os componentes ou aflore a temática.

Em tempo de crise, que também ao mundo dos jogos afectará de uma forma ou de outra, é bom continuar a cuidar que a crise maior por estas bandas ainda é a de tempo, ou de falta dele, melhor terminando.

Rôla



Comments