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Perfume em frasco de alabastro

Publicado a 05/04/2015, 05:06 por José Rôla   [ atualizado a 06/04/2015, 14:48 por Nuno Bizarro Sentieiro ]



“Quando estava à mesa aproximou-se dele uma mulher que levava num frasco de alabastro um perfume puro, muito caro, feito de uma planta chamada nardo. Ela partiu o frasco e deitou o perfume sobre a cabeça de Jesus. Algumas pessoas que lá estavam mostraram-se indignadas com aquilo e começaram a dizer umas às outras: “Para quê desperdiçar todo este perfume? Pois poderia vender-se por mais de trezentas moedas, que se dariam depois aos pobres.” Mc 14, 3-5 

1764, um inventor britânico trabalha numa máquina de tecer que aplicada em contexto fabril será uma das precursoras da Revolução Industrial na Grã-Bretanha.

Março de 2015, a mesa alberga uma panóplia de tabuleiros, tiles, cubos e uma multidão de “meaples” cinzentos. O jogo chama-se Arkwright e exala perfume por todo o lado. Cheira a revolução industrial, a económico, até um pouco de “Brass” se adivinha.

Mas depois de 3 ou 4 horas de esforço e até alguma dedicação, há perfume a mais. Dá ideia que o autor derramou um frasco inteiro sobre o jogo, vários frascos na verdade! E sem necessidade. Ou melhor, sem remição.

Há jogos que parecem ter sido desenhados sem o cuidado de encontrar boas soluções em termos de mecânicas e da maneira como estas operam. Boas ideias, sim, que até funcionam, mas a que faltou uma boa grosa, algo a que se poderá chamar trabalho de editor.

Com Arkwright parece que o autor quis mesmo deixar assim, sem desbastar. Ou então não terá dado para o fazer sem que o jogo deixasse de ser aquilo que o autor pensou para o mesmo desde o início. Como o tal perfume derramado, o frasco quebrado, que não é possível recuperar. A pergunta é: porquê acrescentar assim tanta coisa?

Eu sou dos que gostava de ver a proposta mais polida. Acho que o jogo tinha a ganhar com a extinção dos tiles extra ou o seu uso de forma mais parcimoniosa. Desejava não ter que gastar tanta hora num jogo que gostaria de jogar de novo. Mas entendo que por vezes há que olhar o lado menos pragmático da vida, há que gastar o dinheiro em perfume caro. Não serei pessoa para o fazer, mas percebo que joguinhos há muitos e jogões nem por isso!

Se isso basta para eleger este Arkwirght como um dos meus, não sei. Ainda não sei.

Páscoa santa e perfumada. Aleluia!


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