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Hammer of the Scots



Hammer of the Scots. Quem era o Hammer of the Scots, muitos de vocês perguntarão?! Era o Rei Eduardo I. Gajo porreiro, chegado às artes da batalha e, como fiel amigo do seu amigo, tinha no poder um modo de vida. Claro! Todos os reis e rainhas da altura - e também de agora - o têm. Simples. A história do jogo é simples. Escócia de um lado com os seus nobres (clãs) e a Inglaterra do outro com a sua força política e económica. Sua majestade, carregadinha de mau feitio, recusava a rebelião escocesa de William Wallace (aka: Mel Gibson) e conseguiu a nobreza para si. Mas vamos ao jogo. Ou vamos à história. Cada jogo de Hammer of the Scots conta-nos uma história.

Hammer of the Scots é um jogo de guerra com blocos. Os blocos não são, à primeira vista, muito atractivos, mas trazem uma evidência que é perceptível assim que se começa a jogar. O facto de se estar a combater contra blocos usando blocos transforma-se numa forma muito interessante de esconder as linhas de batalha. O teatro de operações é uma neblina imensa nos céus da Escócia! Um grognard chama-lhe fog of war eu, usando um velho truque de semântica ou então por falta de esteróides, chamo-lhe imprevisibilidade.

Os blocos representam as tropas escocesas, inglesas, os seus líderes e os nobres. A curiosidade do jogo reside muito na capacidade que temos em aproveitar as diferentes capacidades de ataque/defesa de cada um destes blocos. A força de cada um dos nossos homens traduz-se no número de dados (sim, voltamos aos vis e cruéis dados) que podem lançar. Um alto militar como Eduardo I, Wallace ou até a altamente capacitada e treinada infantaria inglesa, lançam 4 dados, quando na sua força máxima. Já os nobres, na maioria menos dotados para as lides da guerra e mais para a política, lançam 3 dados porque têm uma capacidade menor. Estes valores, à medida que os blocos vão sendo atacados, sofrendo danos, vão baixando, tornando-se mais permeáveis e, portanto, menos eficazes.

Para além da força com que atacam, parte fundamental da importância de cada um dos blocos é o timing com que o fazem e a eficácia que conseguem. Estamos sempre a falar de dados mas, Hammer of the Scots apresenta uma forma interessante de realizar batalhas que, na minha opinião, aumenta o grau de sucesso de uma estratégia bem planeada. Cada um dos blocos tem uma ordem de ataque em batalha, assim como uma maior ou menor percentagem de sucesso. Estas referências estão apresentadas nos blocos através de representações alfanuméricas, como por exemplo, A3, B4, C2. Quando há uma batalha, todos os blocos envolvidos, combatem na ordem alfabética apresentada. Primeiro "disparam" os A's, depois os B's e, no final os C's. A curiosidade e importância da decisão de cada batalha reside no facto de as baixas serem aplicadas imediatamente. Ou seja, se quando os A's atacarem, infligirem 4 baixas, por exemplo, as forças adversárias vão ter de as aplicar antes de responderem ao ataque. Em termos práticos, o que isto significa, numa leitura simplificada, é que as forças A são melhores que as B, que são melhores que as C.

Depois da ordem de ataque vem a eficácia. Um A3, por exemplo, consegue infligir um dano se lançar de 1 a 3. Ou seja, 50% de probabilidade. Um B4, valor só destinado ao Rei Eduardo I, e Rei Eduardo II, consegue uma belíssima percentagem de eficácia - 66%! O problema é que esta eficácia só será aplicada depois dos blocos A terem disparado! Ou seja, o jogo vai-nos mostrando o que, em determinadas circunstâncias, dependendo daquilo que queremos fazer, será melhor levar para a frente de batalha.

A principal condição de vitória é o controlo dos nobres. O jogo tem 14 nobres, cada um deles com uma região mãe. No sistema de divisões da Escócia antiga encontramos clãs que se dividem, numa espécie de sociedade feudal e que controlam esta ou aquela região. As famílias, parte delas, pelo menos, foram-se insurgindo contra o poderio e exploração inglesas de Eduardo I - esta questão já vinha sendo trazida pelo seu pai, Henrique III. Mas como parte interessada no domínio do território, principalmente apegados ao poder, estes nobres iam mudando de apoio às partes. Ora acompanhavam a coroa, ora acompanhavam a rebelião explorada. Duas facções surgiram: Robert the Bruce e John III Comyn. Ambos senhores de terras e inimigos/amigos/inimigos, iam endurecendo e amolecendo as posições. Com o surgimento de William Wallace a união de ambas as facções conseguiu um importante avanço nesta guerra e, a batalha de Strirling Bridge, uma das mais emblemáticas de sempre, derrotou os ingleses como até então não havia sido sequer sonhado.

Queremos chamar a nós esses nobres. Queremos o seu apoio nem que, para isso, tenhamos de os convencer pela força. E convencemos! O jogo vive da constante permuta dos nobres. Ora que combate o Steward pelos ingleses ora que combate pelos escoceses. Agora é o Bruce que está do lado dos escoceses mas depois aparece aquela tareia e o homem debanda para o lado dos vermelhos ingleses! A conquista do poder destes nobres é aquilo que faz com que andemos a bater uns nos outros. Os objectivos do jogo vão sendo conseguidos e perdidos, turno a turno, envolvendo cada luta, cada lançamento de dados, cada movimento, num verdadeiro mar de sangue!

Com um mapa dividido em regiões de diferentes importâncias económicas (castelos) e religiosas (cruz), a movimentação, feita de forma linear mas, nem por isso, simplória, é o coração do jogo. Hammer of the Scots usa cartas de 1 a 3 para os movimentos. Cada grupo (unidade ou conjunto de unidades numa determinada região) custa um ponto da carta para se mover. Ou seja, jogando uma carta de 2 podemos movimentar 2 grupos de blocos.

As regiões mais importantes são aquelas que são, economicamente, mais altas - as variações ocorrem entre 1 e 3 - e, pelo menos para os escoceses, as que religiosamente apresentam predominância, e que são marcadas por uma cruz. A cruz é um reflexo da importância religiosa desta guerra da independência escocesa.

Cada jogador inicia o ano com 5 cartas. Quando as cinco cartas são esgotadas, o final do ano aparece e, copiando a realidade, Wallace volta a casa para o Inverno e as suas tropas descançam e retemperam as forças para a nova jornada que se avizinha. Cada um dos castelos que os escoceses controlam, permite retemperar ou acrescentar forças. As tropas, cansadas do esgotante serviço à pátria, iniciam o ano seguinte com uma coragem e persistência, avassaladoras.

Quanto aos ingleses, são poucos os que conseguem sobreviver ao rigoroso inverno da Escócia. Ainda por cima, Wallace, numa das suas estratégias mais sublinháveis, ia retirando do caminho inglês o gado e todo o tipo de alimentação "à mão" que os ingleses pudessem conseguir. Arqueiros, infantaria e até o Rei Eduardo II, filho do destemido e estratega Eduardo I, recolhia a casa todos os invernos. Aliás, consta que Eduardo II gostava mais de homens que de guerra e, talvez por isso, ou então porque, com o rigor do inverno escocês, poderia estragar as botas de montaria, não aguentava aquelas paragens. Já o seu pai, Eduardo I, filho de Henrique III e um grande estratega, havia feito as cruzadas contra os infiéis e tinha uma apetência militar extraordinária. Aguentava os rigores do inverno escocês com a calma de alguém que frequenta as aulas de Ioga do Dalai Lama.

Depois do inverno volta a temperança da guerra, do combate, da crueldade dos dados. Cada jogo de Hammer of the Scots conta-nos uma história: Assassinos em série, um destemido Wallace ou um traidor Mentieth, Eduardo I, morto, às voltas na tumba a chorar o filho incompetente. Robert the Bruce diria mais tarde ser mais difícil conquistar um palmo de terra ao velho Eduardo, morto, que um País inteiro ao seu filho, Eduardo, vivo.

Às voltas pelas highlands, escondendo-se dos avanços das tropas do rei, os escoceses cerravam os dentes e inventavam estratégias militares que, embora algo arcaicas, iriam funcionar durante todo o reinado de Eduardo II. A independência iniciada com a força de Wallace e concluida com a sagacidade de Bruce, estava conseguida. A história sublinhou o feito de Wallace e Bruce, ambos à entrada do castelo de Edimburgo, como que a receber aqueles que respeitam a sua pátria. Antes da derradeira traição, Wallace ainda teve tempo para gritar: "Freedom!!!"

Paulo Soledade

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