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Metropolys



A Ystari, editora nova, francesa, é uma das minhas favoritas. Reconheço-lhe duas coisas fundamentais: capacidade de inovação e qualidade assegurada. Sei que, pelo menos até agora sei-o, um jogo da Ystari é um jogo a ter em conta.

O facto de ser uma editora nova poderia ser um problema. Algumas pequenas, novas, outrora editoras de sucesso, optaram pelo aproveitamento desmedido do sucesso de um dos seus títulos, e afundaram-se na ambição desmedida das produções inacabáveis. Engordaram com o sucesso e caíram de demasiado alto. Pressupunha-se que, sendo nova, a Ystari, francesa, teria uma distribuição difícil e uma fortíssima concorrência neste pequeno meio dos jogos de tabuleiro. E é verdade. A concorrência é grande e feroz mas, numa muito bem conseguida estratégia comercial, a Ystari mantém um espaço muito próprio que criou para si mesma e que soube, até agora, manter, realizando obras à sua medida e procurando a satisfação pela coerência daqueles que, ao contrário da flutuação habitual do mercado, são os seus fieis clientes.

Metropolys é um desses casos de coerência da Ystari e o primeiro impulso começa na fachada. Ao olharmos para a ilustração da fachada, espantosa, fica-nos a impressão de irmos abrir uma espécie de caixa mistério, de sonhos. Uma senhora, nuns imaginários anos 30, direi eu, sombrinha sobre a cidade, curvas nos edifícios, entradas e reentradas, cores sombrias, nevoeiro, mistério. Abrindo a caixa percebe-se a linha dos conteúdos que atravessam também o tabuleiro. Um desenho mecânico, a lembrar porcas e parafusos num ambiente de parque de diversões. Uma mistura de sabores onde, de um lado está o sorvete de morango ou a banca de gomas e, do outro, uma usina abandonada ou um laboratório científico altamente especializado.
Mas o tema nada tem que ver com Metropolys. Talvez este seja o grande desgosto do jogador mais que casual que prefere um tema e uma razão para fazer as coisas para lá do estritamente conceptual e inteligível. Os bairros estão vazios e necessitam de prédios que os habitem. Prédios altos, baixos, sombrios, arejados. Prédios.

Como resultado, temos uma combinação de elementos coerentes e bem preparados mas que nada têm que ver com a cidade de Metropolys da caixa. Poderíamos estar a jogar Massamá ou Belas ou ainda, numa alusão mais alargada, Aeroporto de Faro, Hipermercado Continente ou Estádio do Algarve! O tema é indiferente.

Cada jogador, detendo um conjunto de prédios numerados de 1 a 13 e seguindo um determinado objectivo secreto, tem de se desfazer deles todos. Conforme os nossos objectivos secretos os locais onde conseguimos construir trazem mais ou menos pontos. A construção é feita seguindo a colocação do prédio colocado pelo jogador anterior e, quando ninguém quiser ou puder colocar um prédio com um número acima, num espaço adjacente, o espaço actual fica reservado. Não é fácil, não é difícil, não é demorado e nem sequer é assim tão original.

A pontuação, se escolhermos ser rígidos ao ponto de perceber se todos os bairros são exactamente equilibrados, ao milímetro, não sei quantos testes teriam de ser feitos para perceber que sim. Ou que não! Não é o mais importante. No resultado final, somando os prós e os contras, certamente ninguém dirá, assim, de primeira e sem deixar a bola cair no chão, este jogo é desequilibrado. As oportunidades parecem idênticas para todos. Mais adorno menos adorno, mais sorte menos sorte.

Metropolys, apesar do seu nome magnânimo a lembrar a obra de orçamento interminável de Fritz Lang, é um jogo modesto na sua pretensão e à medida dos fãs da companhia do ypsilon. Maneirinho, com uma versão familiar e outra menos familiar, resulta num conjunto muito bem produzido, com belíssimos materiais e com uma rejogabilidade assinalável. O facto de perdermos 45 minutos a jogar Metropolys pela primeira vez não nos pode abalar na convicção de estarmos perante um jogo simpático, um filler de prémio elevado e com um grau de interacção quase pornográfico de tal forma cada jogador usa o outro.

E quanto à ystari não vale a pena ficarmos com medo. Dizem que as francesas, com a idade, não engordam!

Paulo Soledade

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